sábado, 27 de junho de 2020

A fraude da psicofarmacologia (parte 1)




Nesse artigo e no próximo procuraremos abordar de forma bastante resumida o principal paradigma da psiquiatria nos últimos 70 anos, o da psiquiatria biológica, por meio de sua consequência mais concreta: o desenvolvimento da indústria psicomarmacêutica, sua incrível expansão e seus efeitos sobre a saúde mental das populações atendidas por um sistema de saúde que opera nessa lógica. As concepções de mente e psiquismo que embasam essa prática – e que, como veremos, são curiosamente mais uma justificativa “científica” criada a posteriori do que uma concepção teórica que deu origem a uma prática médica – serão abordadas apenas de passagem, pois em um próximo artigo pretendemos debater essa questão mais a fundo.

Hoje em dia vemos em muitas partes, desde campanhas de conscientização feitas por ONGs, governos, indústrias, associações, até os comentários de pessoas nas redes sociais, nas conversas, a concepção da importância de entender que os diagnósticos mais comuns da psiquiatria, como depressão, transtorno de ansiedade generalizada (TAG), transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), síndrome do pânico, transtorno bipolar, esquizofrenia, entre outros, são doenças. Isso é colocado pelos que foram diagnosticados com algum desses males como uma oposição aos que encaram as doenças mentais como “fraqueza”, “frescura” ou coisas do tipo.

A “prova” que todos utilizam habitualmente é o discurso que foi popularizado pela psiquiatria moderna: trata-se de um desequilíbrio neuroquímico em que as taxas de neurotransmissores cerebrais, como a dopamina ou a serotonina, estão desreguladas. Por isso, é um problema de saúde “como qualquer outro”, e que, “como qualquer outro” tem um tratamento medicamentoso adequado, que pode ser prescrito por um especialista – um psiquiatra – para que seu cérebro fique regulado e volte a funcionar normalmente. É doença porque tem uma “prova biológica” disso. Sobre essa base teórica, que considera que a doença para ser “real” necessita de um “substrato fisiológico”, discutiremos mais à frente; do que trataremos aqui são suas consequências.

Bom, para o bem ou para o mal esse texto cumpre o papel de dizer que essa história é uma mentira construída sob uma massiva campanha de propaganda regada a bilhões de dólares da indústria farmacêutica. E, não, não se trata de nenhuma teoria da conspiração. O brilhante e extensivamente documentado livro do jornalista estadounidense Robert Whitaker, “Anatomia de uma epidemia”, lançado originalmente em 2010 e recentemente traduzido ao português por Vera Ribeiro e editado pela Fiocruz recentemente conta em sórdidos detalhes essa história. Tomaremos os dados por ele levantados a partir de uma ampla gama de pesquisas, entrevistas e investigação de diversas fontes como base fundamental para o que apresentamos nesse texto. Mas deve-se ter em mente que ele não é o único; a corrente crítica ao modelo psiquiátrico hegemônico é bastante antiga, desde pelo menos o movimento antipsiquiatria dos anos 1960, e vem ganhando muitos adeptos frente aos crimes praticados pela indústria farmacêutica em conluio com a medicina acadêmica.

Comecemos com um dado bem eloquente sobre o que está por trás, a causa mais concreta para o impulso irrefreável do aumento das drogas psiquiátricas: em 1987 – quando a suposta “revolução” psicofarmacólogica já tinha mais de trinta anos e estava às vésperas de seu segundo grande impulso com o lançamento do Prozac – os EUA gastavam US$ 800 milhões de dólares em drogas psiquiátricas; em 2007 esse número chegava a US$ 40 bilhões. Um aumento em 50 vezes em apenas vinte anos (1).


Revista Time fala sobre a "arma secreta" da guerra do Iraque: soldados medicados com Prozac

Contudo, ao contrário do que seria de se esperar, esse aumento assombroso no consumo de drogas psiquiátricas não representou uma contrapartida em termos de saúde pública. Se os remédios são tão eficazes para combater os problemas de saúde mental, seria de se esperar que eles estivessem sendo reduzidos. Mas não: nos EUA, a capital mundial da indústria psicofarmacêutica, em 1955, havia 355.000 pessoas internadas em hospitais psiquiátricos por doenças mentais, ou seja, 1 em cada 468 americanos. Whitaker compara esses números com os que recebem pensão do governo em decorrência de doenças mentais, uma vez que o modelo de internação psiquiátrica foi – felizmente – colocado em desuso: em 1987 havia 1,25 milhões de americanos recebendo pensão do governo por esse motivo.

Se quisermos, contudo, comparar apenas os dados das pensões (já que poderia se argumentar discrepâncias entre os critérios das internações e das pensões de diversas ordens), Whitaker nos fornece também esse dado. Em 1987 o Prozac é liberado para comercialização pelo governo dos EUA. Em duas décadas, no ano de 2007, o número de pensionistas por incapacitação para o trabalho em decorrência de doenças psiquiátricas era de 3,97 milhões, ou seja, 1 a cada 76 americanos. Mais do que o dobro de 1987 e seis vezes mais do que os internados de 1955 (2).

Entre os jovens, particularmente, a epidemia de doenças mentais deu um salto ainda mais abrupto. Um estudo de 2007 da revista Archives of General Psichiatry apontava que o número de crianças e adolescentes diagnosticados com transtorno bipolar aumentou 40 vezes entre 1994 e 2003: de 25 a cada 100 mil pacientes, para 1.003 a cada 100 mil pacientes. Esse estudo foi divulgado no jornal Folha de S. Paulo com entrevistas de psiquiatras que forneciam uma explicação sucinta para o fenômeno: era apenas um reflexo no aperfeiçoamento do diagnóstico, que permitia identificar jovens adoecidos que antes passavam batidos (3). Falando do Brasil, na mesma edição da Folha aparecia uma reportagem sugerindo que o aumento só não era tão grande em nosso país pela insuficiência de diagnósticos. Mesmo assim, no Hospital das Clínicas da USP naquele ano o número de crianças com esse diagnóstico passou de 22 em 1995 para 135 em 2007 (4).

Além do aumento dos pacientes psiquiátricos em geral, como os dados acima demonstram, o aumento em relação aos transtornos afetivos – fundamentalmente a depressão e o transtorno bipolar – foram particularmente chamativos. Nos EUA, em 1955, havia 50.937 pessoas em hospitais psiquiátricos com esses diagnósticos. Em 2010 estimava-se que 1,4 milhões de americanos recebiam pensões por incapacitação em decorrência dessas doenças. Entre os jovens, a tendência se agrava em relação aos transtornos afetivos: em 2006 46% dos adultos jovens (18 a 26 anos) que recebiam pensão por doenças psiquiátricas enquadravam-se em um transtorno afetivo (e 8% em transtorno de ansiedade) (5). Um relatório do governo americano de 2008 afirmava que 1 em cada 16 adultos jovens dos EUA tinha uma “doença mental grave” (6).


Gráfico demonstra crescimento do número (em milhões) de pessoas que recebem pensão do governo nos EUA por serem consideradas inaptas ao trabalho após o lançamento do Prozac (1987)

O que acontece então? Seria apenas a “melhora dos diagnósticos” que fez o número de enfermidades mentais se revelar uma das principais epidemias da saúde pública contemporânea? De acordo com essa lógica, sempre vivemos em um mar de doenças mentais, mas apenas não nos dávamos conta disso. É isso que a psiquiatria moderna quer nos fazer acreditar. Poderia ser difícil, mas eles tem o mais importante aliado no capitalismo: o capital. Claro que a expansão do diagnóstico cumpre também um papel – que abordaremos em outro texto – mas o que queremos apontar aqui é o impacto da iatrogenia: as doenças causadas, agravadas ou tornadas crônicas pelo próprio tratamento médico. Essa é a barbárie que a indústria farmacêutica e a psiquiatria tem ocultado há décadas.

Primeiro os remédios, depois as teorias

Hoje vemos como bárbaros diversos métodos utilizados na psiquiatria em sua era pré-farmacológica: duchas de alta pressão torturantes contra os pacientes; injeções de extrato de tireóide de ovelha; injeções de sais metálicos; soro equino; arsênico; até a extração de dentes de seus pacientes foi reportada pelo superintendente do Hospital Estadual de Trenton, em Nova Jersey, como um “sucesso” em 1916 (7). Esses foram os primeiros “êxitos” de um momento em que a psiquiatria quis se transformar em “ciência”, ou seja, abandonar o que chamavam de “tratamento moral” instituído por Phillipe Pinel e implementar tratamentos físicos. O objetivo dos psiquiatras era, enfim, alcançar o status de outras especialidades médicas que tinham tratamentos “eficazes e comprovados” para as enfermidades. Seguiu-se essa linha com os comas insulínicos induzidos, as terapias convulsivas com veneno (metrazol) ou com eletrochoque (essa ainda utilizada com uma “eficácia” comprovada que tem muito em comum com os psicofármacos).

O mais “revolucionário” dos tratamentos desse período rendeu a seu criador, Antonio Egaz Moniz, o prêmio Nobel de Medicina. Tratava-se da lobotomia, intervenção cirúrgica que são cortadas as vias de ligação dos lobos frontais do cérebro com o tálamo. Ou seja, uma lesão cerebral irreversível. Esse “milagroso” procedimento “transforma animais selvagens em criaturas gentis, no curso de algumas horas”, como afirmou o New York Times (8). 6% dos pacientes não sobreviviam ao procedimento. Foi realizado em cerca de 50.000 pessoas apenas nos EUA, inclusive em crianças com “mau comportamento” (qualquer semelhança com o que ocorre hoje com psicofarmácos e a Ritalina para medicar crianças hiperativas não é mera coincidência) (9).


Esquema mostra técnica de lobotomia que utiliza picador de gelo introduzido acima do canal desenvolvida por Walter Freeman, popularizador do procedimento nos EUA.

A lobotomia atingiu seu auge de popularidade no período pós-segunda guerra, quando foi amplamente utilizada em veteranos traumatizados com os horrores dos combates. Chegaram ser realizadas 5 mil procedimentos por ano nos Estados Unidos, com um saldo de 250 a 500 mortes, entre os casos de “sucesso” que deixavam os pacientes lesionados permanentemente “dóceis” (10). A barbárie da lobotomia – bem como da abordagem psiquiátrica manicomial, um capítulo monstruoso no qual não entraremos aqui – e de seu uso foi popularizada com o brilhante filme “Um estranho no ninho”, de 1975.

A lobotomia caiu em desuso com a descoberta do primeiro psicofármaco: a clorpromazina. Contudo, ainda são utilizados outros métodos de “psicocirurgia” em muitos hospitais, como a cingulotomia, que, por meio de um eletrodo colocado dentro do cérebro, destrói tecidos de 8x18mm. Como afirmou o próprio Reese Cosgrove, o psicocirurgião mais importante dos EUA, “Não entendemos a fisiopatologia: não temos nenhuma compreensão dos mecanismos que fazem o procedimento funcionar” (11). Ou seja, eles não fazem a menor ideia do que estão fazendo com a mente do paciente, mas sabem que “funciona” (da mesma forma que “souberam” que a lobotomia, as injeções de insulina, as duchas d’água de alta pressão e outros métodos hoje ridicularizados “funcionavam”). Parece selvagem para você? Infelizmente veremos que com os remédios a coisa não é tão diferente.

O primeiro remédio psiquiátrico, a clorpromazina, foi descoberto por um cirurgião francês, Henri Laborit, em 1949, seu uso seria o de um anti-histâminico para cirurgias. Mas logo ele viu que ela possuía um efeito sedativo e cogitou sua possibilidade como anestésico. Em 1951, num congresso em Bruxelas, sugeriu que poderia ter uso psiquiátrico pois “produzia uma verdadeira lobotomia medicamentosa”. Não nos parece um dado menor que a comparação do sucesso da droga tenha sido com o procedimento “domesticador” da lobotomia. Veja como descreveram os efeitos da clorpromazina os psiquiatras Jean Delay e Pierre Deniker, que em 1952 passaram a administrá-la a pacientes psicóticos na França:

“Sentado ou deitado, o paciente permanece imóvel na cama, amiúde pálido e com as pálpebras abaixadas. Mantém-se em silêncio na maior parte do tempo. Quando interrogado, responde após uma pequena demora, devagar, em tom monótono e indiferente, expressando-se em poucas palavras e emudecendo depressa. Sem exceção, a resposta costuma ser válida e pertinente, o que mostra que o sujeito é capaz de atenção e reflexão. No entanto, raras vezes toma a iniciativa de formular alguma pergunta; não expressa preocupações, desejos nem preferências. Em geral, tem consciência da melhora trazida pelo tratamento, mas não manifesta euforia. A aparente indiferença ou a demora na reação aos estímulos externos, a neutralidade emocional e afetiva, a redução da iniciativa e da preocupação, em alteração da percepção consciente ou das faculdades intelectuais, constituem a síndrome psíquica decorrente do tratamento” (12).

Corretamente, os psiquiatras na época – o que não duraria muito tempo – não consideraram que estavam “curando” e nem sequer “tratando” alguém com essa administração medicamentosa, mas sim facilitando o “manejo” dos pacientes ou ajudando a que fosse feito o tratamento terapêutico (a psiquiatria ainda tinha como modelo hegemônico a psicanálise e suas variações). Mesmo Deniker alertou para os graves efeitos colaterais que rapidamente surgiam (para além dos próprios efeitos psíquicos descritos acima): sonolência reversível e, depois, discinesia (movimentos involuntários e anormais), hipercinesia (movimentos excessivos) e parksonismo (já uma primeira indicação de lesões cerebrais) (13). Assim, foi descoberto o primeiro remédio da classe dos “neuroléticos”.

Logo em seguida surgiria o primeiro tipo de tranquilizante, descoberto de forma semelhante: procurando um antibiótico de tipo gram-negativo, o químico Frank Berger esbarrou em uma substância que causava um tipo novo de relaxamento muscular e letargia em cobaias animais. Desenvolvendo essa droga, chegou ao meprobamato, logo introduzido no mercado pela empresa farmacêutica para a qual Berger trabalhava, a Wallace Laboratories. Com o nome de Miltown, essa droga passou a ser comercializada e levou a um efeito cascata em que outros laboratórios correram atrás de substâncias com efeitos semelhantes, como o clordiazepóxido, desenvolvido pela Hoffman-La Roche e comercializado com o nome de Librium.


Propaganda nos anos 50 diz que "a gravidez pode se tornar uma experiência mais feliz" com Miltown

Os efeitos “anti-ansiedade” obtidos com cobaias se expressavam em ratos que pressionavam alavancas para conseguir comida mesmo sabendo que levariam um choque. Como sintetizou um artigo em uma publicação científica da época, traduzindo em termos humanos, “isto significa que ainda poderia sentir medo ao ver um carro acelerar na sua direção, mas o medo não o faria correr” (14). Claro que a propaganda para o grande público pintava os efeitos sedativos do Miltown em cores bastante diversas.

A última das três descobertas que impulsionaram a chamada “revolução psicofarmacológica” foi a iproniazida: surgida a partir de combustíveis alternativos para foguetes desenvolvidos por cientistas alemães na segunda guerra, a iproniazida foi sintetizada em 1951 por químicos da Hoffman-La Roche para servir como remédio para a tuberculose. Administrada em sanatórios, constatou-se um efeito colateral de deixar os pacientes excessivamente animados, e então passaram a testar a iproniazida como remédio para pacientes deprimidos. A alta coleção de efeitos colaterais dos tuberculosos tratados com a droga, como tonteira, constipação, dificuldade para urinar, neurite, sensações irritantes na pele, confusão e psicose, não foram suficientes para desmotivar o psiquiatra Nathan Kline, que em 1957 relatou que os pacientes tratados com iproniazida por pelo menos cinco semanas apresentavam melhora dos sintomas da depressão. Assim, foi colocado em uso médico o primeiro “estimulante”, como foi classificada inicialmente a iproniazida.

Esse brevíssimo relato do surgimento das três primeiras drogas psiquiátricas entre 1954-1957 é suficiente para levantar o questionamento sobre os métodos supostamente “científicos” por trás da indústria farmacêutica. Essas drogas, que passaram a ser administradas pelos médicos, não tinham nenhum conhecimento sólido a seu respeito estabelecido. Não se conheciam seus mecanismos de ação, a forma como agia sobre o cérebro, e nem sequer havia uma teoria minimamente embasada na ciência médica sobre quais seriam os fatores etiológicos (as causas) das doenças mentais. Os medicamentos foram desenvolvidos sob a base do mais rasteiro empirismo, com critérios de tornar pacientes mais “administráveis” pelos médicos, ou de aliviar sintomas isolados.

O que garantiu então a construção da credibilidade dessas substâncias para os pacientes?

Corporativismo, propaganda, governo e imprensa a serviço da fábula medicamentosa

Nos EUA a regulamentação das medicações está associada desde o início ao corporativismo médico e uma iniciativa que, longe de ter como objetivo a garantia de “comprovação científica” ou mesmo de “eficácia”, procurava estabelecer uma reserva de mercado aos médicos na qual estes fossem os únicos detentores “legítimos” do conhecimento sobre as doenças e suas curas. Isso começa no início do século XX com a American Medical Association (AMA – Associação Médica Americana) que organizava sob seus próprios critérios um “departamento de propaganda” que supostamente dizia quais remédios eram “charlatanice” e quais eram “eficazes” (que essa atribuição seja a do departamento de “propaganda” já diz tudo). É evidente, os remédios “éticos” da AMA eram os produzidos pela indústria farmacêutica. Assim, se consolida a primeira aliança corporativista entre médicos e indústria, em que a credibilidade dos médicos é utilizada para legitimar a indústria, e os remédios desta são os instrumentos que conferem o nicho exclusivo aos médicos, já que são eles que os receitam.

O segundo passo nesse processo foi a entrada do governo, em 1938, nesse jogo de reserva de mercado, em que a FDA (Federal Drug Administration) aprovaria os remédios “seguros” (a eficácia só foi colocada em questão em 1980, com direito a campanha da AMA contra a necessidade de que essa precisasse ser comprovada). Depois, em 1951, uma lei instituiu que as receitas médicas seriam obrigatórias para a compra e vende de medicações. Estava assegurada, de uma vez por todas, a reserva de mercado dos médicos como detentores da saúde e da doença. Aos pacientes caberia ser seus clientes, aos farmacêuticos, tornarem-se varejistas da indústria obedecendo às prescrições dos todo-poderosos médicos. Os médicos, por sua vez, tornam-se os “garotos propaganda” das inovações da indústria. Como disse a revista Fortune, em 1965: “Ao que parece, a posição do próprio médico no mercado é fortemente influenciada por sua reputação de uso das drogas mais recentes” (15).

Longe de negar esse papel, os médicos o abraçaram, posto que ele legitimava sua posição de status social e de alto valor comercial. Assim, tomando para sio o papel de publicitários, a AMA, junto com a Sociedade Francesa de Medicina e a empresa farmacêutica Smith Kline, criaram em 1951 (mesmo ano em que os médicos tornaram-se os monopolizadores da prescrição de diversos remédios) um programa de televisão, The March of Medicine (A Marcha da Medicina) para divulgar os “espetaculares avanços” dos seus produtos. A imprensa em seu conjunto divulgava o que era passado pela própria indústria. Para que tenhamos uma ideia das cifras dessa “parceria comercial”: a receita da indústria farmacêutica ultrapassou um bilhão de dólares em 1957; a renda dos médicos duplicou entre 1950 e 1970; a receita proveniente de propagandas de remédios em publicações da AMA saltou de 2,5 milhões de dólares em 1950 para 10 milhões de dólares em 1960, e uma resenha dessas publicações em 1959 afirmou que 89% dos anúncios não trazia informação sobre seus efeitos colaterais (16).

Foi isso que garantiu o instantâneo sucesso da venda das drogas psiquiátricas, muito distante de qualquer tipo de consideração teórica ou clínica, de qualquer tipo de preocupação com a segurança ou modo de ação dos remédios sobre os pacientes. A imprensa se encarregou de popularizar os produtos, botando lenha na fogueira do nascente capitalismo psicofarmacêutico. O Miltown (meprobamato) foi o maior estouro de vendas, uma vez que ele era utilizado para acalmar a ansiedade, e não para pacientes psicóticos graves ou deprimidos (que eram raros nessa época pré-iatrogenia psicofarmacológica). Surgiram aí termos tão utilizados para a venda desses produtos, como “a pílula da felicidade”, termo utilizado pela revista Changing Times para descrever o Miltown (17). Começaram nessa época também as extravagantes propagandas em eventos médicos, como o caso em que a Wallace Laboratories, produtora do Miltown, pagou 35 mil dólares a Salvador Dalí (cuja esposta era uma usuária de Miltown, diga-se de passagem) para que esse fizesse uma instalação em uma convenção da AMA como forma de publicidade. Whitaker relata em seu livro, “Os participantes entravam num túnel escuro e gerador de claustrofobia, que representava o interior de uma lagarta – seria essa a sensação da ansiedade –, e ao emergirem de novo na luz deparam com uma dourada ‘borboleta da tranquilidade’, metamorfose que se devia ao meprobamato” (18).


Instalação feita por Dalí como propaganda do Miltown sob encomenda da Wallace Laboratories.

Essa pesada artilharia publicitária não apenas ajudou a vender essas drogas cujos efeitos psíquicos eram absolutamente desconhecidos, mas também obteve a mudança de seu próprio status: quando lançados, a clorpromazina era tida como um “tranquilizante potente”, o meprobamato um “tranquilizante leve” a iproniazida um “estimulante psíquico”. Não se falava em nenhum deles como “cura”. Isso mudou rápido: logo os termos “antipsicótico” e “antidepressivo” foram cunhados, associados à ideia de que às drogas corrigiam “desequilíbrios químicos no cérebro” e, portanto, “curavam”.

Notas:

1- Entrevista com Robert Whitaker: https://www.youtube.com/embed/5VBXWdhabuQ

2- Robert Whitaker. "Anatomia de uma Epidemia". Editora Fiocruz, 2017. pp. 24-25.

3- Maria Rita Kehl. "O tempo e o cão". Boitempo Editorial. pp. 51-52.

4- Idem.

5- Whitaker, op. cit., p. 25.

6- op. cit., p. 27.

7- op. cit., p. 59.

8- idem.

9- idem.

10- Andrew Solomon. "O Demônio do Meio-dia". p. 151.

11- Op. cit., p. 152.

12- Whitaker, op. cit., p. 65.

13- op. cit., p. 66.

14- op. cit., p. 67-68.

15- op. cit., p. 69.

16- op. cit., p. 72

17- op. cit., p. 73.

18- op. cit., p. 74.


domingo, 14 de junho de 2020

Os 164 anos de Freud e a revigorada atualidade da psicanálise em tempos de crise e pandemia



Em tempos de pandemia, completamos nesse dia 6 de maio os 164 anos de nascimento do fundador da psicanálise, o austríaco Sigmund Freud. Na era dos coachs e da psicofarmacologia com as promessas de “curas” pela regulação de neurotransmissores, a exploração do inconsciente e da nossa posição subjetiva continua sendo uma pedra fundamental para entender e transformar o indivíduo e o social.

O número de vezes que a psicanálise foi declarada “morta” é infindável, se equiparando talvez apenas às incontáveis vezes que também tentaram “enterrar” o marxismo. O que poderia parecer uma coincidência fortuita não é. Karl Marx comemorou 202 anos de nascimento dia 5, e no dia seguinte foi a vez dos 164 anos de Sigmund Freud. Duas teorias que, por diferentes vias, incomodam pilares estruturantes de uma sociedade capitalista que – hoje já podemos dizer com todas as letras e difícil será para quem queira contestar – está em franca decadência.

É velha conhecida de quem procure anedotas sobre a psicanálise e suas origens a história de que Freud a situava como um dos três grandes abalos ao narcisismo humano: Copérnico havia tirado a terra do centro do universo revelando sua condição como apenas mais um planeta no cosmos; Darwin havia tirado o homem do centro da criação ao dizer que o homem era apenas um animal, fruto da evolução e descendendo dos macacos antropoides; e Freud, sem falsa modéstia, dizia ter promovido o terceiro abalo ao relevar que o Eu “não é senhor em sua própria casa”, sendo nossa mente governada pelo inconsciente, do qual muito pouco sabemos.

A metáfora é discutível, mas considero-a válida. Acredito, contudo, que falta aí outro abalo decisivo, desferido pelos criadores do materialismo histórico-dialético, Karl Marx e Friedrich Engels, que, dentre outras coisas, demonstraram que não são as “nobres ideias”, nem o “espírito absoluto”, ou Deus, que governam nosso destino, mas sim as condições materiais que, em última instância, determinam nossas concepções de mundo; ou ainda, que o capitalismo, essa forma social tão avançada, era pai de suas próprias contradições e de seus coveiros, os trabalhadores, e estava destinado, como qualquer outra forma social precedente, a desaparecer. E que o todo poderoso capitalista não era mais do que a corporificação do verdadeiro senhor dessa sociedade, a força social impessoal chamada Capital. Ao desvelar o movimento da história, Marx e Engels também elucidaram que “tudo que existe merece perecer”.

Se é fato que a psicanálise ainda pôde ser muito mais facilmente “domesticada” do que o marxismo, por não ter em si explicitamente a indicação de que era necessário derrubar pela força organizada de uma classe subalterna todo o edifício do Estado, fazendo voar pelos ares a propriedade privada e a ideologia que a sustenta, isso não quer dizer que não foi também combatida por diversas vias, inclusive “de dentro”, com teorias que “limpavam” os aspectos incômodos das descobertas freudianas, extirpando seu potencial transformador e crítico e fazendo da psicanálise mais uma psicologia adaptativa, como, por exemplo, na célebre teoria conhecida como Ego-psychology (psicologia do Ego) que frutificou como uma deturpação estadunidense da psicanálise muito condizente com o “american way of life”. Essas doutrinas derivativas sobrepujavam a importância do Eu sobre o inconsciente, tomando como objetivo de seu trabalho o reforço daquele – uma instância psicológica que, por sua natureza, é alienada aos desígnios de um “outro” social – criando assim, como sintetizou Elisabeth Roudinesco, “uma verdadeira religião da felicidade e da integração” ao ter como meta o reforço do Eu como recurso adaptativo às demandas sociais. Mas também o marxismo, em suas versões “acadêmicas”, não escapou ao triste destino de se ver apresentado em uma versão “epistemológica” e sem seu gume revolucionário.

Pandemia, capitalismo e saúde mental

Não queremos aqui falar de história, e sim do terrível hoje: com a pandemia como catalisador, vemos eclodir uma crise social e econômica – cujos profundos reflexos políticos ainda estamos por ver – de proporções monumentais. E as duas teorias declaradas mortas sacodem de si a poeira das calúnias e vilipêndios para mostrar em alto e bom som a sua fulgurante atualidade.

Que em meio à pandemia que mata centenas de milhares, governantes e capitalistas venham a público tentar nos convencer que o melhor a fazer é reabrir normalmente os comércios e “esperar a morte” em nome de seus lucros é um atestado acabado da falência do capitalismo como sistema social onde qualquer tipo de valorização da vida humana possa ser mantido.

E, se na economia a pandemia não fez um “pouso tranquilo”, chegando abruptamente em um terreno de contradições profundas que se agravavam desde 2008, pelo menos, na subjetividade das populações que a enfrentam não foi diferente. O capitalismo não arruína os trabalhadores apenas economicamente e debilita sua saúde física, mas também degrada seu psiquismo por inúmeras formas – e não apenas os trabalhadores, mas a população como um todo, ainda que de formas muito desiguais.

Para ficarmos apenas com um índice que revela a profundidade desse problema, a OMS estima em 450 milhões o número de pessoas com alguma patologia psíquica. Em que pese que todos os termos envolvidos nessa conta – como a definição de “doença mental”, seus diagnósticos e sintomas, por exemplo – devam ser amplamente questionados, o número é expressivo de que há algo que não vai bem com a sociedade. Um número talvez mais expressivo e menos questionável é o de que 800 mil pessoas se suicidam por ano no mundo, uma a cada 40 segundos; um fato que tratamos brevemente aqui e aqui. O capitalismo contemporâneo criou uma pandemia de doenças mentais e de suicídios, e esse é um fato incontestável.

Contudo, esse número alarmante se refere ao capitalismo contemporâneo em tempos “saudáveis”, e, em meio à pandemia, tudo piora. Previsões já falam no dobro de suicídios no Chile em 2020, num país em que esta já era a maior causa de morte na faixa etária de 20 a 25 anos e a segunda maior dos 15 aos 19 (seria coincidência que este país foi o “modelo” do neoliberalismo latinoamericano?). Nos EUA, os casos de depressão e ansiedade já crescem, e se prevê uma crise na saúde mental no país; na Itália também foram noticiados suicídios decorrentes da pandemia, incluindo o de duas enfermeiras. Aliás, a verdadeira barbárie que é a gestão capitalista da pandemia se mostra particularmente entre trabalhadores da saúde, onde vemos consequências como o suicídio de uma médica estadunidense, ou as três “quedas inexplicáveis” de médicos russos submetidos a condições absurdas de trabalho na linha de frente do combate ao coronavírus.

É claro que o isolamento e o medo do contágio, entre outros fatores decorrentes da própria pandemia, podem ser desestabilizadores e nocivos para o psiquismo, mas muito mais grave é o fato de que em nossa sociedade, regida pelo lucro, a vida das pessoas é carne-de-canhão para os patrões e o Estado, e isso se mostra de forma muito mais crua e perversa em um momento como esse. Desemprego em massa, miséria, mortes em larga escala pela ausência de testes, com corpos sendo enterrados em valas e sequer a possibilidade de uma cerimônia fúnebre são apenas alguns dos fatores que podem afetar psiquicamente as pessoas e que não são consequências do vírus, mas sim de uma sociedade que não coloca em primeiro lugar as vidas humanas em risco.

São os neurotransmissores?

Parece que tudo ao nosso redor demonstra o quanto o dogma repetido à exaustão pela “ciência” médica de que são as desregulações bioquímicas de neurotransmissores as verdadeiras causadoras do mal-estar psíquico. Essa tese (sobre a qual tratei mais a fundo aqui) foi por décadas a pedra-de-toque das críticas da psiquiatria para afirmar que a psicanálise estava superada e o inconsciente era “balela”. Tudo se resolveria com psicofármacos, que consertariam os nossos desequilíbrios bioquímicos causadores de problemas que iam da ansiedade e depressão à esquizofrenia. E, se nos primeiros anos após a introdução do uso de remédios psiquiátricos houve algum nível de imbricação entre as duas disciplinas – em particular porque nos EUA e muitos outros países uma parte importante da “domesticação” da psicanálise havia consistido em impor que apenas médicos pudessem ser psicanalistas, contrariando o que Freud sempre defendeu (Cf. “A questão da análise leiga” de 1926) – o inevitável afastamento foi se consolidando conforme a psicofarmacologia ganhava peso e corpo.

A “vitória final” sobre a psicanálise se deu com a publicação da terceira edição do DSM (Diagnostical and Statistical Manual of Mental Disorders) em 1980, a “bíblia” estadunidense para os psiquiatras, classificando diagnósticos e tratamentos, como um grande “manual de instruções” para os médicos. A própria noção de que um manual estatístico de diagnósticos possa balizar o manejo de um tratamento psíquico é radicalmente avessa às concepções psicanalíticas, que procuram fazer aflorar na relação transferencial entre analisante e analista o que está recalcado no inconsciente, dando-lhe um tratamento simbólico por meio da linguagem. Mas na terceira edição do DSM a ideologia de um manual “a-teórico”, e, portanto, “objetivo”, com diagnósticos baseados em listas de sintomas, finalmente triunfou decisivamente, excluindo todas as categorias psicodinâmicas (relacionais) e as etiologias (modelos causais) das doenças, e aferrando-se ao modelo fisicalista compatível com a “comprovação de eficácia” dos ensaios clínicos randomizados – que têm por trás o interesse nada inocente da bilionária indústria farmacêutica.

Mas não há “estatística” possível de estabelecer uma conduta ou tratamento adequado em uma relação que é de qualidade e não de quantidade. Explico-me: na ideia do DSM – que se aferra a uma concepção positivista, ou, na melhor das hipóteses, fenomenologista de ciência – se estabeleceria um tipo de “objetividade” e “universalidade” do diagnóstico e tratamento ao classificar as patologias a partir de sintomas e propugnar um tratamento único para elas – baseando-se na risível afirmação de que não estariam fundamentados em nenhuma teoria sobre o psiquismo, mas apenas em “fatos”. Assim, de uma “lista de sintomas” se poderia aferir, a partir da manifestação de uma determinada quantidade deles, se um paciente tem ou não uma doença, e em seguida passar ao tratamento “adequado” estabelecido pelo manual.

Na psicanálise, contudo, não é a eliminação de um sintoma o que importa: ele é, como um sonho ou um ato-falho, um hieróglifo que precisa ser decifrado no ato interpretativo que se estabelece na relação entre analisando e analista. Diferente do médico, o analista não se defronta com um “paciente” sobre o qual seu saber opera como o cinzel de um escultor sobre um passivo bloco de mármore, mas com um agente, um analisando que é sujeito de sua própria investigação psíquica, e que, estabelecendo uma conexão entre sintomas, lembranças, sonhos, ideias, tentará, num trabalho arqueológico realizado em parceria com o analista, estabelecer relações, nexos e sentidos para as manifestações do inconsciente – entre elas os sintomas – que nos chegam como sinais de fumaça. Assim, um sintoma não é um signo fechado, cujo sentido está estabelecido por um manual. Numa analogia, tomar um sintoma como “desânimo” como um índice fechado de uma lista de sintomas, tal como no DSM, seria como tentar interpretar um sonho com um “manual dos sonhos”, que me diga “borboleta amarela significa morte”. A borboleta amarela de meu sonho terá um sentido radicalmente daquela de outro sonhador, porque ela está ali como uma metáfora de um sentido que precisa ser desvendado: o que é aquela borboleta amarela neste meu sonho?

O psiquismo é social

Nesse sentido, a resposta da psicofarmacologia e das teorias que a sustentam é de um profundo potencial iatrogênico (causador ou agravador de doença). Os sintomas, sendo os “sinais de fumaça” do incêndio que está ocorrendo abaixo da “superfície psíquica”, pedem que se “puxe” eles, como um fio num novelo de lã, para que possamos ir chegando no que está além dele. Os remédios, quando tratados como algo mais do que um paliativo, ou seja, quando tomados como cura para um problema cuja origem é supostamente bioquímica, apenas “tapam o sol com a peneira”: dispersam a fumaça, e deixam o fogo correr solto. O resultado, como muitas vezes se vê – inclusive documentadamente, como trato no artigo supracitado – é que a médio e longo prazo há um prognóstico muitas vezes pior do que para pessoas sem nenhum tipo de tratamento, além do estabelecimento de uma dinâmica de dependência dos remédios. Nada melhor, do ponto de vista empresarial: todos que lidam com a indústria farmacêutica conhecem o mandamento de que é mais lucrativo um cliente vitalício do que um paciente curado.

Há uma boa parte dos psicanalistas – quiçá a maioria – que trata da relação transferencial, do inconsciente e dos problemas psíquicos, como se fossem um tema pertencente ao âmbito restrito às quatro paredes de um consultório; em geral, diga-se de passagem, num bairro nobre e com consultas a preços que não raramente chegam ao valor do salário de um trabalhador precário. É mais uma forma de fazer o potencial explosivo da psicanálise caber “adequadamente” numa sociedade de mercadorias – onde, aliás, ela nasceu e se reproduziu até hoje.

Mas já em Freud se apontava um sentido muito mais profundo e abrangente das descobertas psicanalíticas. Obras tão precoces como Moral sexual civilizada e doença nervosa moderna (1908) já demonstravam cabalmente que a sociedade é geradora do mal-estar psíquico, e que isso está associado a valores morais, preceitos, condutas. Nesse texto, por exemplo, Freud denunciou a “dupla moral” que permitia ao homem satisfazer suas necessidades sexuais em relações extraconjugais antes e durante o casamento, enquanto à mulher a monogamia é estrita. Ao longo de sua obra desenvolve uma visão que se pauta na lógica de um “contrato social”, onde as pulsões mais primitivas e antissociais – nomeadamente, da agressividade e da sexualidade – seriam reprimidas em benefício da civilização e em nome da possibilidade de convívio mútuo. Contudo, ainda que Freud estivesse longe de enxergar a divisão social do trabalho e a divisão da sociedade em classes, com a propriedade privada e o capital como fundamentos da exploração do homem pelo homem, em momentos de extrema agudeza crítica ele apontou para o fato de que tal repressão não se dá igualmente entre todo os membros de uma sociedade. Em O futuro de uma ilusão (1927) ele vai ao ponto de dizer que uma sociedade fundada na desigualdade não merece se perpetuar:

Quanto às limitações que se aplicam apenas a classes determinadas da sociedade, nos deparamos com condições graves e também jamais ignoradas. É de se esperar que essas classes desfavorecidas invejem as vantagens das privilegiadas e façam de tudo para se livrar de seu próprio acréscimo de privações. Quando isso não for possível, uma medida constante de descontentamento se imporá dentro dessa cultura, o que pode levar a rebeliões perigosas. Se, porém, uma cultura não conseguiu ir além do ponto de que a satisfação de certo número de seus membros tenha como pressuposto a opressão de outros, talvez a maioria – e esse é o caso de todas as culturas atuais –, é compreensível que esses oprimidos desenvolvam uma hostilidade intensa contra a cultura que por meio de seu trabalho eles mesmos possibilitam, mas de cujos bens lhes cabe uma cota muito pequena. (...) Não é preciso dizer que uma cultura que deixa insatisfeito um número tão grande de membros e os incita à rebelião não tem perspectivas de se conservar perpetuamente, nem o merece. (FREUD, 1927, p. 29-30)

Assim, muito contrariamente ao que alguns dos que se reivindicam herdeiros de sua teoria fazem, Freud via que “A oposição entre psicologia individual e psicologia social ou das massas, que à primeira vista pode nos parecer muito significativa, perde muito de sua nitidez ao ser examinada mais a fundo.”, já que considerava que “Na vida psíquica do indivíduo, o outro entra em consideração de maneira bem regular como modelo, objeto, ajudante e adversário, e, por isso, desde o princípio, a psicologia individual também é ao mesmo tempo psicologia social nesse sentido ampliado, porém inteiramente legítimo” (FREUD, 1921, p. 35).

Coronavírus, esgarçamento social e a extrema-direita

Em tempos de pandemia e uma crise orgânica em que os de cima já não podem governar como antes e se encontram sem um projeto claro que os unifique, nem os de baixo têm condições políticas para derrubá-los, a psicanálise não é desprezível para entendermos a recomposição do jogo social. Vladimir Safatle, por exemplo, é um intelectual que – em que pese os desacordos com suas conclusões como a necessidade de defesa do impeachment como saída de “soberania popular” para a crise política – resgata de maneira muito fértil o pensamento psicanalítico, e particularmente o freudiano, para tentar compreender a dinâmica política atual.

Dentre os grandes revolucionários marxistas, Trótski é provavelmente o que deu mais atenção para a fundamental questão da psicologia das classes e das massas, intimamente atrelada às condições sociais e políticas, como um fator de primeira importância política. Não à toa, também foi um dos dirigentes bolcheviques que via com simpatia a psicanálise e ajudou a que ela encontrasse incentivo do Estado operário revolucionário para se estabelecer na União Soviética (sendo posteriormente proibida como “ciência burguesa” e banida por Stálin). Textos como Teses sobre revolução e contrarrevolução ou Questões sobre o modo de vida são obras-primas de análise da psicologia das massas em um processo revolucionário. Em outros trabalhos analisou a psicologia da burocracia que usurpou o Estado operário em benefício próprio. Em seus textos dedicados à análise da ascensão do fascismo na Alemanha, Trótski trata da psicologia das massas da pequena-burguesia arruinada que se tornam a base social sobre a qual prolifera o lodo do fascismo, até se tornar um movimento de massas a serviço do capital financeiro e voltado à destruição das organizações operárias. Sem dúvida, não há explicação melhor do que as do revolucionário russo para os fatores econômicos, sociais e políticos que fazem do fascismo – que nos dias “de paz” tem tão pouca adesão – um movimento de massas durante crises sociais agudas do capitalismo. Mas é fundamental pensar nas contribuições psicanalíticas também para entender especificamente os mecanismos psicológicos que dão a coesão a uma massa.

Cenas como a de pessoas que, em uma impressionante negação de fatos evidentes da realidade, seguem seu líder Bolsonaro para as “marchas da morte”, ou que se ajoelham nas ruas rezando em devoção como fanáticos, nos revelam que os mecanismos de identificação apontados por Freud (particularmente em Psicologia das massas e análise do Eu) são muito poderosos, estabelecendo uma relação dialética com as motivações sócio-econômicas que criam esses movimentos políticos. A desagregação do tecido social com pandemia e crise econômica, e a crise orgânica no campo político, oferecem um terreno fértil para que surja uma figura messiânica como Bolsonaro, que, ao ocupar o lugar simbólico de “pai”, ao oferecer a seus adeptos um inimigo definido claro sobre os quais de projetar a culpa por todas as desgraças (o “PT”, “Lula”, os “comunistas”, as “feministas”, os “intelectuais”, etc.) permite criar uma coesão muito forte entre seus adeptos. Freud descrevia esse processo como o de uma infantilização, em que os membros dessa massa se assujeitam e colocam nessa figura de líder a possibilidade de sua salvação; por isso, estão dispostos a obedecê-lo cegamente e a abrir mão de seu próprio julgamento, tornando sua adesão cega e acrítica – a ponto, por exemplo, de acreditar que é só uma “gripezinha” a despeito de dez mil mortes e a cada dia mais – pois o “pai” sabe sempre o que é melhor para seus filhos. De fato, morrer por ele pode ser uma prova de amor.

Também nos ajuda a compreender porque a sempre evidente estupidez fanfarrona e grosseria de Bolsonaro o tornam, de forma aparentemente paradoxal, ainda mais adequado a esse papel. Em primeiro lugar, reforça o elemento de identificação porque, mesmo ocupando o lugar de pai, ele aparece como “um de nós”, e fala aquilo que muitos pensam, faz aquilo que muitos querem, mas que é proibido aos demais. A sua baixeza aparece travestida de desafio a uma ordem que seria imposta, e o líder se torna a própria encarnação da Lei – a manutenção dessa ordem assim aparece vista como subversiva e radical. Assim, para Bolsonaro é fundamental se mostrar como “perseguido pela imprensa”, vítima da Folha ou da Globo, que seriam comunistas. É um traço comum, aliás, aos líderes da extrema-direita, que em sua retórica se diziam “inimigos dos ricos” e “defensores do povo”. É como se Bolsonaro canalizasse, quando fala as coisas mais abjetas, o desejo de transgressão da ordem para a manutenção dessa mesma ordem, só que representada pela sua própria pessoa e contra as instituições. Todas as injustiças e privações que a sociedade capitalista efetivamente impôs sobre grande parte de seus apoiadores se corporificam nos culpados apontados por ele, e o próprio Bolsonaro como aquele que saiu do meio de “nós” para fazer a justiça. Posta-se assim como um bonaparte, e, para seu séquito cumpre esse papel de líder, pai, e mestre, aparecendo, no entanto, como “um de nós” em oposição às instituições.

Em meio à pandemia, Bolsonaro redobrou essa aposta, e se vê como em sua intenção nem tão velada de querer “ser” o “novo AI-5” e encarnar em si a ordem, ele procura sempre se mostrar como a vítima de uma “velha ordem”, representada pelas instituições do Estado como STF, parlamento, etc. Em nada muda para essa construção ideológica o fato de que enquanto faz essa retórica ele costure sua aliança com o Centrão; exceto, é claro, para aqueles que escolheram como seu “messias” outro candidato a bonaparte, Sérgio Moro. E mesmo em seu discurso após a demissão de Moro, Bolsonaro reforçou essa sua apresentação como uma “vítima” de “poderes do sistema”, no caso a PF dirigida por Moro.

Entender esses mecanismos de identificação, como opera o discurso e os mecanismos psíquicos de construção de uma massa coesa não podem jamais substituir a análise política, econômica e social concreta de uma determinada situação para podermos compreender a dinâmica complexa entre classes e frações de classe; nesse erro caem aqueles que muitas vezes “psicologizam” excessivamente as análises políticas, dando peso desmedido a fatores como esses sem ver que eles podem ser alterados. Contudo, sem entender a relação dialética desses mecanismos psíquicos com fatores econômicos, sociais e políticos, muitas vezes é difícil explicar completamente uma adesão tão profunda de setores populares e de parcelas expressivas da classe trabalhadora a um projeto político que é tão radical e explicitamente oposto a seus interesses; e é mais difícil ainda pensar como atuar para combater os fatores que favorecem essa adesão.

Nesses 164 anos de Freud, essa reflexão breve e, obviamente, muito parcial, tem como objetivo apenas dizer que a psicanálise continua viva e imprescindível para podermos pensar em profundidade a subjetividade humana, seja individualmente, seja socialmente.

Obras citadas:

- FREUD, S. Psicologia das massas e análise do eu (1921). São Paulo: L&PM Pocket, 2013. Retour ligne manuel
- ___________. O futuro de uma ilusão (1927). São Paulo: L&PM Pocket.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

A saúde mental no capitalismo – Parte 1: considerações sobre o suicídio



Publicado também em Esquerda Diário 

Série de textos que discute a saúde mental no capitalismo. Nesse primeiro, se esboça uma anatomia do suicídio em nossa sociedade, suas causas e a forma como a medicina contemporânea, representada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), o entende.

A depressão é considerada uma das doenças com maior ocorrência no mundo, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS). Seus dados afirmam que 4,4% da população mundial sofrem da doença, e 5,8% da população brasileira. Em relação à ansiedade, o Brasil é recordista mundial, com 9,3%.
Os dados divulgados em 23 de março pela OMS revelam dados referentes ao ano de 2015, e afirmam que 322 milhões de pessoas no mundo sofriam de depressão naquele ano. De acordo com os números da organização, teria ocorrido um salto de 18,4% da incidência da doença desde 2005. Ainda de acordo com a pesquisa recentemente divulgada, o Brasil é o segundo país com maior prevalência da doença na população em todo o continente americano, com 5,8% dos habitantes (11,5 milhões). O primeiro lugar ainda fica com os Estados Unidos, com 5,9% da população.
Outros dados divulgados pela pesquisa referem-se aos chamados transtornos de ansiedade, cuja incidência é, segundo a OMS, de 264 milhões de afetados no ano de 2015, tendo aumentado 14,9% em comparação com 2005. Nesse quesito, o Brasil é considerado campeão, com 9,3% da população afetada (18,6 milhões de pessoas).
A pesquisa da OMS também revela os números referentes ao suicídio: em 2015, foram 788 mil pessoas que se mataram, o equivalente a 1,5% do total de mortes em todo o mundo. Um suicídio a cada 40 segundos. Isso coloca o suicídio entre as 20 maiores causas de morte; quando considerados apenas jovens entre 15 e 29 anos, o suicídio foi a segunda maior causa de morte em todo o mundo no ano de 2015. Estima-se que para cada suicídio cometido, vinte pessoas tentaram se suicidar. O Brasil ocupa o oitavo lugar no ranking, com mais de doze mil suicídios.
Os números são um escândalo, que revelam um problema de saúde pública de primeira ordem. Mas, diferente do que se costuma afirmar, eles não “falam por si mesmos”. Essa série de textos pretende esboçar uma análise marxista sobre essas questões sociais de primeira importância em nossa época.
O paradoxal tabu do suicídio
O suicídio é um tema sobre o qual pesa um paradoxo: ele continua sendo um tabu social, apesar de ser uma das maiores causas de mortes do mundo. De fato, é uma situação semelhante ao que ocorria com a sexualidade no século XIX, quando ocorreu o surgimento da psicanálise, justamente procurando dizer sobre esse tema aquilo que era proibido dizer. Essa analogia não é fortuita como pode parecer, e retomaremos ela mais adiante, ao tratarmos das doenças psíquicas – cuja ocorrência está frequentemente associada ao suicídio.
Por enquanto, fiquemos com esse dado: Foucault, em sua “História da sexualidade”, questionava aquilo que chamava de “hipótese repressiva”: a ideia de que a sexualidade era um tema “proibido”, que era a todo custo reprimida. O que ele procura questionar nessa hipótese é que, ao contrário de ser puramente reprimida, na sociedade existia uma infinidade de discursos sobre a sexualidade, e que o objetivo da mal chamada ciência sobre a sexualidade, a sexologia, era a de estabelecer parâmetros e normas, dizendo o que era normal e o que era aberração, a perversão, o que seria um desvio, e, portanto, deveria ser submetido à punição ou – de forma mais “científica”, ao tratamento. O objetivo, portanto, mais do que reprimir, era o de normatizar, classificar, moldar de acordo com interesses de dominação específicos.
O suicídio, também, (como as doenças psíquicas) é um tema sobre o qual se escreve e se fala muitíssimo. Mas com uma finalidade e um enfoque habitualmente muito distinto do que procuraremos lhe dar (e muito próximo do que eram os objetivos da maioria dos “cientistas” da sexualidade do século XIX: controlar e regrar). O suicida é, de certa forma, um “pervertido” aos olhos de nossa sociedade. É permitido falar, escrever, e muito, a respeito do suicídio: desde que seja para condená-lo, para repudiá-lo, para lamentá-lo ou para “curá-lo” (cura cujo significado é a mera manutenção da vida, independentemente de sua qualidade, tal como na medíocre medicina de nossa sociedade). Não se pode, em hipótese alguma, buscar sua compreensão profunda e muito menos – esse é o pecado que Freud fez com a sexualidade – retirá-lo da esfera privada, tratando-o como uma questão social, com causas e implicações sociais.
Na verdade, sob um olhar superficial, o tratamento que a OMS e a medicina conferem hoje ao suicídio o retira da esfera privada. Mas apenas da mesma forma aprisionadora e fiscalizadora como os sexólogos do século XIX tiraram a sexualidade da esfera privada. Trata-se de prevenir o suicídio com métodos como retirar a arma da mão do suicida. Como se tratava de "tratar" as "perversões sexuais" para os sexólogos. O que queremos é o "pecado" que estava na intenção inicial de Freud: entender as motivações profundas do suicídio. Não "prevenir" sua manifestação, mas atacar suas causas sociais.
Marx e o suicídio como manifestação da estrutura defeituosa da socidade


No século XIX, tornou-se célebre o livro de Émile Durkheim, de 1897, “O suicídio”, em que o autor procurava um olhar social sobre o fenômeno, vendo como a cultura e a sociedade são elementos fundamentais para motivar o suicídio. Contudo, um escrito anterior, do ano de 1846, que não teve a mesma repercussão, tem para nós um significado muito maior. Trata-se de “Sobre o suicídio”, escrito de Marx baseado e utilizando-se das anotações do arquivista da polícia francesa, Jacques Peuchet, que constituem um capítulo de suas memórias.
Marx vai além de Durkheim, e não apenas vê as relações entre sociedade, cultura e suicídio, mas utiliza suas evidências para condenar a estrutura social apodrecida que engendra essas mortes. Com o relato de quatro casos feitos por Peuchet, o autor mostra que as causas do suicídio – nos casos retratados, ao menos – são as opressões criadas pelas leis e costumes sociais. Fundamentalmente, são o machismo e o patriarcado que se sobressaem como os agentes impulsionadores de três dos casos analisados, de mulheres que tiram a própria vida para escapar a situações impostas a elas por uma sociedade em que eram tratadas como propriedade, como não-sujeitos. Mesmo, como se verifica no texto, com as mulheres burguesas.
Explicitamente, Marx critica, na introdução desses escritos, a “(...) pretensão dos cidadãos filantropos [que] está fundamentada na ideia de que se trata apenas de dar aos proletários um pouco de pão e de educação, como se somente os trabalhadores definhassem sob as atuais condições sociais, ao passo que, para o restante da sociedade, o mundo tal como existe fosse o melhor dos mundos.” Ele ainda afirma que: “Embora a miséria seja a maior causa do suicídio, encontramo-lo em todas as classes, tanto entre os ricos ociosos como entre os artistas e os políticos. A diversidade das suas causas parece escapar à censura uniforme e insensível dos moralistas. (...) está na natureza de nossa sociedade gerar muitos suicídios (...)”
Essa observação é fundamental para lembrar que, para o marxismo, não se trata de defender que os trabalhadores são o sujeito revolucionário para romper apenas suas próprias correntes da exploração capitalista e nada mais; seu papel social na produção os coloca como sujeitos sociais da emancipação de toda a humanidade, com a tarefa histórica de lutar contra o sofrimento que se abate sobre todos, em suas formas diferentes, em tal sociedade.
Se destaca a miséria como a maior causa do suicídio, não deixa de dizer, contra os moralistas, que as causas do suicídio são muitas. Aponta, inclusive, um paradoxo incompreensível tanto para os moralistas religiosos de sua época como para a obtusa medicina de nosso tempo, que procura ver em baixas taxas de neurotransmissores as motivações totais, primeiras e únicas de nossa subjetividade: “até o próprio amor à vida, essa força enérgica que impulsiona a personalidade, é frequentemente capaz de levar uma pessoa a livrar-se de uma existência detestável.” E as causas para que uma existência seja detestável sob o capitalismo são inúmeras, e, se a da exploração econômica se impõe de forma avassaladora e onipresente, nem por isso as muitas outras que estão relacionadas a essa – de forma direta ou indireta – são também menos opressivas e insuportáveis.
O suicídio foi, por isso mesmo, não apenas um tema para o jovem Marx, como deve ser para o marxismo. Como ele disse certa vez a sua filha Laura, citando Terêncio quando indagado a respeito de sua máxima favorita: “Nihil humani a me alienum puto" (Nada do que é humano me é estranho). O suicídio, com toda sua dimensão trágica, é uma atitude profundamente humana. Junto com Peuchet, Marx afirma:
“O número atual de suicídios, aquele que entre nós é tido como uma média normal e periódica, deve ser considerado um sintoma da organização deficiente de nossa sociedade; pois, na época da paralisação e das crises da indústria, em temporadas de encarecimento dos meios de vida e de invernos rigorosos, esse sintoma é sempre mais evidente e assume um caráter epidêmico.”
Exemplos dos suicídios na crise: Grécia e os campos de refugiados
A atualidade dessa colocação é expressa nos números revelados pela OMS, que crescem exponencialmente com os avanços dos efeitos da crise capitalista. Na Grécia, por exemplo, são gritantes os efeitos da crise em relação ao aumento de suicídios. Até 2010, o país era classificado pela OMS como um dos que tinha o menor índice de mortes causadas por suicídio, com 6,5 a cada 100 mil habitantes. Em 2011, novo levantamento apontou para uma alta de 40%. A alta está diretamente relacionada aos efeitos da crise econômica e às medidas de austeridade, como desemprego, endividamento, entre outras.
A declaração do ministro de Proteção ao Cidadão à época, presente na matéria da revista Exame citada acima, é de um cinismo escandaloso e, ao mesmo tempo, exemplar sobre como a sociedade capitalista lida com os suicídios que ela própria provoca com a miséria que cria: ele afirmou que a Polícia estava tomando medidas para conter a alta dos casos.
Também o papel da Igreja Ortodoxa, mais de 150 anos depois do escrito de Marx, continua sendo tão reacionário e hipócrita quanto das Igrejas de seu tempo, se recusando a realizar cerimônias fúnebres para os suicidas. Como ele afirmou em “Sobre o suicídio”: “Tudo o que se disse contra o suicídio gira em torno do mesmo círculo de ideias. A ele são contrapostos os desígnios da Providência, mas a própria existência do suicídio é um notório protesto contra esses desígnios ininteligíveis.”
Assim, a religião renega os suicidas e os governos querem fiscalizá-los com a polícia. Não à toa, em muitos lugares e épocas o suicídio, além de incluído na lista dos pecados, se encontrava na lista dos crimes. Hoje ainda existem pelo menos 25 países onde há leis específicas para punir tentativas de suicídio, e 10 países onde se segue a lei da Sharia, que também por punir os que tentam o suicídio. As penas variam de uma multa à prisão perpétua. Não é de pouca importância ideológica a atitude de considerar o suicida um criminoso: ela consiste numa mensagem inegável do Estado ao indivíduo de que a sua vida não lhe pertence efetivamente. Por trás do discurso liberal do capitalismo, a mensagem implícita é que não apenas sua força de trabalho, como também sua vida e seu direito a se privar dela, são propriedades que não pertencem a você mesmo.
Como sabemos, em 2011 a crise grega ainda estava longe de seu ponto culminante, e, por mais que a classe trabalhadora e as massas gregas tenham mostrado sua imensa disposição de luta, com mais de 32 paralisações gerais nacionais, a falta de uma direção à altura fez com que a burguesia imperialista continuasse afundando as massas gregas nos efeitos da crise. As medidas policiais dos governos gregos, portanto, evidentemente não conseguiram impedir que os suicídios continuassem se multiplicando, como no dramático caso de Dimitris Christoulas, aposentado de 77 anos que atirou na própria cabeça na praça Syntagma, em frente ao parlamento grego. Um estudo mais completo do jornal BMJ Open mostrou como as medidas de austeridade estavam diretamente associadas à alta dos suicídios.
As políticas anti-imigração da UE também são responsáveis diretas por uma onda de suicídios e aumentos de doenças psíquicas entre os refugiados, como denunciaram as ONGs Médicos Sem Fronteiras e a Save The Children. Esses casos são a consequência dos campos de refugiados que se assemelham a campos de prisioneiros de guerra, nos quais até crianças de 12 anos tentam se suicidar frente às políticas bárbaras impostas a essas milhares de pessoas pelo imperialismo.
Os operários chineses e os suicídios contra a exploração até a morte
Como no caso grego, em que o suicídio de Dimitris levou a uma onda de protestos, vale lembrar que a Primavera Árabe estourou com o a auto-imolação (suicídio ateando fogo ao próprio corpo). Também na época da escravidão dos povos africanos, não eram incomuns os suicídios entre os negros escravizados como uma das formas de escapar à vida de exploração e violência brutal a que eram submetidos, em uma situação em que se procurava impedir-lhes ao limite a condição de sujeitos de suas próprias vidas; um correlato desses suicídios são as ondas de suicídios de operários chineses, recorrentes para escapar à vida de exploração e miséria que lhes é imposta pelo capitalismo.
Casos recorrentes são registrados na Foxxcon, que fabrica iPhones, mostrando o que se esconde por trás da fortuna construída ao custo de muito sangue pelo celebrado “gênio” Steve Jobs. Espremidos frente à mais brutal exploração das empresas imperialistas e o monstruoso regime da burocracia governamental que os impede de se organizar política e sindicalmente, as ameaças de suicídio tornaram-se também uma forma de lutar por melhores condições de trabalho e salários.
Uma forma, aliás, muito compreensível frente ao fato de que suas condições de trabalho chegam a matar aos milhares os operários por exaustão, como foi com Tian Fulei, cuja vida teve o valor fixado pela empresa e as autoridades chinesas em 80 mil yuans (cerca de 39.800 reais). O caso não é uma exceção: mais de 1.600 morrem de tanto trabalhar por dia na China.
Indígenas
No Brasil, há duas populações em particular cujas taxas elevadíssimas de suicídio atestam a miséria capitalista – tanto no plano econômico quanto de direitos humanos: são os indígenas e as pessoas trans.
Os crimes praticados contra os povos indígenas das américas ainda representam uma história praticamente não contada. São crimes conscientemente ocultados pelos Estados, inclusive o Estado brasileiro, e certamente – provavelmente ao lado do que foi feito aos povos africanos – constituí um dos maiores genocídios da história da humanidade. São 524 anos de crimes impunes contra esses povos, desde os bandeirantes, passando pelos extermínios em massa e remoções forçadas da ditadura, e chegando às atuais violações e massacres dos latifundiários, madereireiros, capangas e policiais, sob a cumplicidade criminosa do Estado brasileiro.
Em 2014, foram 70 casos – excluindo os muitos que devem ocorrer sem registro oficial – de assassinatos de indígenas, quase sempre motivados por disputas para roubar suas terras. A mortalidade entre crianças foi de 785 crianças nesse mesmo ano, chegando a 141,64 a cada mil nascidos entre os xavantes, no Mato Grosso do Sul.
As populações indígenas resistem, a muito custo, mas a brutalidade da vida que o capitalismo lhes impõe cobra preços altíssimos a esses povos, cuja vida é uma guerra cotidiana pela sobrevivência. Ninguém em sã consciência poderia considerar a elevadíssima taxa de suicídios dos povos indígenas, que recai sobretudo em cima dos jovens, cujas perspectivas de vida são extremamente precárias, de forma separada dessas condições de vida. Em 2014, o relatório de violência contra os indígenas apontou 135 casos de suicídio entre os povos de diversas regiões, uma morte a cada três dias, sendo 90% deles entre jovens de 10 a 29 anos. No Amazonas e Mato Grosso do Sul estão concentradas as maiores taxas, com números que representam, literalmente, um extermínio dos povos atingidos: em São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, a taxa de suicídio é de 33,3% na população entre 10 e 19 anos. Em Tacuru, no Mato Grosso do Sul, o índice foi de 100%. Entre os Guarani, a taxa de suicídios é 30 vezes maior do que no restante da população. Dados coletados entre 2000 e 2005 mostraram que entre os Kaiowá a taxa de suicídios era 19 vezes maior do que no restante da população.
Essa verdadeira barbárie mostra o efeito devastador do cruzamento entre pobreza, racismo, privação de direitos humanos e de condições mínimas para uma vida digna. Todos frutos do capitalismo. Desde o golpe institucional, os ataques aos direitos indígenas, que já eram imensos sob os governos petistas, tiveram carta branca para avançar, com alguns dos mais notórios criminosos vivos contra os povos indígenas, como Romero Jucá, fazendo parte do primeiro escalão do governo.
A barbárie capitalista como fator indutor de suicídio entre os povos indígenas está longe de ser uma realidade exclusiva do Brasil: a própria OMS aponta que povos indígenas nos EUA, Canadá, aborígenes australianos e na Nova Zelândia também possuem taxas de suicídio muito acima da média das populações de seus respectivos países, em especial entre os homens jovens.
Pessoas trans
Entre a população trans a situação é também de níveis absurdos de suicídios e tentativas de suicídios. O mapeamento é muito difícil pois contam-se com dados ainda menores do que em relação aos indígenas, já que o próprio reconhecimento da identidade trans é uma luta atual. Sua cidadania, como a dos povos indígenas ou dos refugiados, é uma quimera. A brutal violência que impera contra as pessoas trans, a marginalização que leva a que 90% dessa população se encontre na prostituição, a cumplicidade do Estado com a discriminação praticada cotidianamente: tal como no caso dos indígenas, a situação de precariedade e marginalização absoluta que o capitalismo reserva às trans é o evidente fator que leva às absurdas taxas de suicídio. A expectativa de vida de uma pessoa trans no Brasil é de 35 anos, enquanto do restantes da população é de 75,2 anos.
A própria falta de registros oficiais dos suicídios (ou de outros dados elementares) referentes às pessoas trans é um atestado inequívoco da violência psíquica, subjetiva e material que o capitalismo pratica contra essa parcela das pessoas. Acompanhamentos dos casos são feitos por grupos de ativistas, de forma militante, como no caso da Rede Trans Brasil, que faz um clipping.
Entre os poucos dados disponíveis no Brasil se encontra a pesquisa “Transexualidades e Saúde Pública no Brasil: entre a invisibilidade e a demanda por políticas públicas para homens trans/transmasculinos”, realizada pelo Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT (Nuh) e pelo departamento de Antropologia e Arqueologia (DAA) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que pesquisou a população trans masculina nas regiões metropolitanas de São Paulo, Belo Horizonte e Campinas, que expressou que entre os 28 homens entrevistados, 24 (85,7%) já haviam pensado em suicídio, e 3 (10,7%) nunca haviam considerado a possibilidade de se matar (1 dos participantes não quis responder). 7 (25%) afirmaram já ter tentado se suicidar.
Nos EUA, a ONG National Gay and Lesbian Task Force realizou pesquisa que indicou que 41% das pessoas trans daquele país já tentaram cometer suicídio em algum momento, contra 1,2% da população cis. Uma pesquisa do Instituto Williams de Los Angeles, publicada em 2014, indicou um número semelhante: 41% das pessoas trans tentaram cometer suicídio, contra 4,6% da população em geral. A Universidade de Columbia realizou outra pesquisa em que atesta que entre a população LGBT o índice de suicídios é 5 vezes maior quando comparado à população em geral.
Temos assistido recorrentemente a essa tragédia, com casos que se tornaram conhecidos, como os de Gabriela Monelli, Kayla Lucas França e Leelah Alcorn, entre dezenas de outros. As mensagens de despedida, como a de Leelah, não deixam nenhuma margem para dúvida: a transfobia as matou.
Leelah escreveu: “A vida que teria vivido não vale a pena viver... Pois eu sou trans. (...) Quando eu tinha 14 anos, aprendi o que significava ser transgênero e chorei de alegria. Depois de 10 anos de me sentir confusa finalmente entendi quem eu era. Imediatamente disse à minha mãe e ela reagiu de forma extremamente negativa, dizendo-me que aquilo era uma fase, que eu jamais seria uma mulher de verdade, que Deus não cometia erros, que eu estava errada. Se vocês estiverem lendo isso, pais, por favor não digam isso aos seus filhos. Mesmo que você seja cristão ou seja contra as pessoas transgênero nunca diga isso a alguém, especialmente para o seu filho. Isso só vai fazê-lo se odiar. E é exatamente isso que aconteceu comigo. (...) Essa é a essência de tudo, o motivo pelo qual eu quero me suicidar. Desculpe-me se não há motivo suficiente para você, são motivos suficientes para mim. (...) O único jeito de eu descansar em paz será o dia que as pessoas transgênero não sejam tratadas do jeito que eu fui, quando forem tratada como humanas, com seus sentimentos e direitos humanos respeitados. Gênero precisa ser ensinado nas escolas, quanto mais cedo melhor. Minha morte precisa significar alguma coisa. Minha morte precisa ser acrescida ao número de pessoas transgênero que cometeram suicídio esse ano. Quero que alguém olhe esse número e diga: "isso é foda" e conserte isso. Consertem a sociedade. Por favor.”
E Kayla, cuja mensagem de despedida foi deixada em seu perfil no Facebook e depois apagada pela sua família (que também jamais aceitou sua identidade de gênero), dizia em uma parte: “Como desistir de quem você é? Isso não significa a própria morte? E quantas vezes nós morremos esse mês?”.


O recorte das populações indígenas e trans feito é apenas para exemplificar que, em cruzamento com as causas econômicas estão outros fatores de exclusão, discriminação e preconceito. Entre a população negra poderíamos novamente ver o padrão de predominância se repetir: o Instituto Williams da UCLA apontou que 54% dos casos de tentativas de suicídio ocorrem entre pessoas que se declaram “multirraciais”, o que nos EUA significa quase em sua totalidade os imigrantes latinos e os negros.
Mulheres e as novas e velhas violências do patriarcado
O fato de que o suicídio ocorra predominante entre os homens mascara o fato de que são as mulheres que mais expressam por meio da vontade de morrer a opressão que se abate sobre elas no capitalismo. Nos países ricos, o suicídio é três vezes maior entre os homens do que entre as mulheres, uma proporção que cai para 1,5 homens que se suicidam a cada mulher quando consideramos os países pobres. Contudo, as mulheres tentam se suicidar três vezes mais do que os homens, e também têm uma imensa prevalência de doenças como a depressão.
De fato, há fenômenos sociais recentes de suicídio que mostram como os casos relatados por Marx, de suicídios induzidos pelo machismo e o patriarcado, podem assumir novas formas, mas continuam tragicamente presentes enquanto sobreviver o capitalismo. Um destes é o monstruoso “revenge porn” (pornografia de vingança), em que homens “se vingam” das mulheres com quem se relacionaram divulgando vídeos de atos sexuais, ou fotos nuas, de suas antigas parceiras na internet. Muitas mulheres, em especial adolescentes, acabam se suicidando após a exposição de fotos e vídeos seus nas redes. Assim aconteceu com Júlia dos Santos, 17, do Piauí, e Giana Fabi, 16, do Rio Grande do Sul. Entre os inúmeros casos de tragédias semelhantes, com casos de suicídio de mulheres motivados pela prática do Revenge Porn (cujos culpados nunca são punidos), um dos mais conhecidos é o da italiana Tiziana Cantone. Após ter um vídeo íntimo divulgado, ela virou meme nas redes. Pediu demissão, mudou de cidade, se escondeu do mundo, enfrentando uma profunda depressão. Tentando tirar seus vídeos de circulação, ela abriu um processo na justiça. Foi atendida, mas o Estado determinou a pagar 20 mil euros por custos legais do processo. Ela se suicidou no final de 2016, com 31 anos.
Outro nome que se dá à prática de difundir imagens sexuais sem permissão é “sexting”, que também vem fazendo centenas de vítimas. Estima-se que entre as vítimas dessas práticas 81% sejam mulheres e uma a cada quatro sejam menores de idade. Esses casos, em que o suicídio ou tentativa de suicídio são recorrentes, são uma expressão não apenas do enorme peso do machismo e da misoginia em casos de suicídios femininos, mas também da cumplicidade do Estado. Mônica, que teve vídeos e fotos suas tomando banho divulgadas quanto tinha apenas 14 anos, disse na reportagem acima citada da Geledes: “Recorri à Delegacia da Mulher de Sorocaba. Só que o processo é tão enrolado, tão demorado e burocrático, que você acaba até desistindo. Parece que quanto mais contato você faz em relação a isso, mais próxima (do caso fica) e mais constrangimento sente.”
Contudo, convivendo com as formas “2.0” de machismo e opressão, estão as velhas práticas da violência contra as mulheres, que ainda persistem entre as maiores motivadoras para o suicídio feminino. 35% das mulheres em todo o mundo sofreram algum tipo de violência física por parte de algum parceiro ou desconhecido. Essas violências, especialmente quando sofridas na infância, são com imensa frequência desencadeadoras de depressões e podem levar a suicídios.
A OMS e sua abordagem sobre o tema do suicídio
O primeiro relatório da OMS que abordou exclusivamente o tema do suicídio, “Prevenindo o suicídio: uma imperativa global”, é de 2014. Nele, as Nações Unidas atestam o diagnóstico de 1846 feito por Marx-Peucheut, de que a miséria está em primeiro lugar nas causas de suicídio: 75% deles ocorrem em países pobres. Também afirmam que “o suicídio impacta nas populações mais vulneráveis do mundo e é altamente prevalente entre os grupos já marginalizados e discriminados da sociedade”, num reconhecimento formal de fatos como os que mostramos acima, e que há mais de 150 anos Marx já sinalizava.
Também é assustador constatar que, entre os países pobres, há uma incrível concentração de suicídio na juventude, o que não ocorre nos países ricos. Esse, talvez, seja um dos dados mais alarmantes quando pensamos em termos de suicídio e crise econômica. A geração “nem-nem” – privada da crise tanto do direito aos estudos como do acesso ao emprego – vê um futuro sombrio pela frente, e certamente a possibilidade do suicídio se torna um espectro a sondar a vida de uma geração cujo futuro vem sendo aniquilado pelos ataques, pelos planos de austeridade dos governos capitalistas.


Gráfico extraído do relatório da OMS compara número de mortes por suicídio em milhares (eixo vertical) com idade (eixo horizontal). O gráfico vermelho se refere aos países pobres e médios, e o gráfico cinza, aos países ricos.
Um relatório como esse da ONU não poderia deixar de ser extremamente cínico, já que, como se torna evidente a partir da discussão feita acima, é o capitalismo que implica nos fatores sociais mais evidentes que causam o suicídio (em relação às doenças psíquicas, cujo debate é mais difícil, abordaremos mais à frente). E a ONU é um órgão do imperialismo mundial, responsável direta ou cúmplice das causas apontadas, da miséria, guerras, discriminação, opressões que levam centenas de milhares ao suicídio. Mesmo entre os diversos profissionais sinceros, e verdadeiramente dedicados a combater o suicídio que participam da elaboração do relatório, não poderá haver a indicação de uma saída que discuta efetivamente os problemas estruturantes do aumento ininterrupto e alarmante dos suicídios em todo o mundo.
Uma amostra evidente disso é a forma como classificam os “fatores de risco” para o suicídio. Ao dividir fatores de risco entre “sociais”, “comunitários”, de “relacionamento” e “individuais”, eles apontam como um dos fatores “sociais” mais relevantes o acesso a meios materiais para cometer suicídio. Por isso, suas indicações são, por exemplo, dificultar o acesso aos meios que possa utilizar um suicida a tirar sua vida. Um exemplo é o das mulheres chinesas no campo, um dos locais onde o suicídio é mais recorrente entre mulheres do que homens. De acordo com a lógica da OMS, o acesso a pesticidas está entre os fatores de risco: a primeira causa de morte não-natural entre mulheres de 15 a 35 anos é o autoenvenenamento por agrotóxicos. Assim, a primeira recomendação da OMS para prevenir o suicídio é a restrição aos meios com os quais as pessoas costumam se matar.
Por outro lado, incluem entre os fatores “individuais” elementos como perda de emprego e dificuldades financeiras, uso abusivo de álcool e doenças mentais. Assim, de forma flagrantemente ideológica, de acordo com as noções de uma agência de saúde capitalista, o desemprego, a pobreza, o alcoolismo e as doenças mentais são problemas “individuais”, e não sociais. Portanto, cabe aos governos atuar proibindo o acesso a pesticidas, mas nunca garantindo o pleno emprego. Aliás, entre as medidas indicadas em seu relatório, a OMS inclui pontos como induzir a responsabilidade social da mídia (para que não noticie “irresponsavelmente” suicídios), mas não menciona uma palavra sobre emprego, moradia, salários dignos. O único serviço público mencionado é o acesso à saúde e políticas para saúde mental.
Essa lógica da medicina capitalista para a prevenção de suicídios parte, na verdade, da naturalização da busca pela morte (pois, afinal, naturaliza a sociedade capitalista e, nas palavras de Marx “está na natureza de nossa sociedade gerar muitos suicídios”), e a tentativa de impedir que as pessoas realizem o desejo de morrer. O que cabe ao governo é “dificultar o acesso” aos meios materiais para executar o suicídio, e, quanto aos indivíduos, que se esforcem para não ficar desempregados ou terem doenças mentais (problemas que seriam de sua responsabilidade, e não do Estado).
É, na realidade, a mesma lógica do ministro grego que pretendia prevenir o suicídio com a atuação policial, ou dos moralistas religiosos que querem coibir a prática prometendo o inferno ou a proibição de cerimônias religiosas para os suicidas. Em uma sociedade em que a vida é tão horrível para as pessoas, a solução que o capitalismo dá é tentar dificultar seu acesso à morte. Não há um questionamento sobre porque é tão horrível ser uma mulher jovem chinesa no campo que elas massivamente procurem se suicidar: a solução é tirar os meios de suas mãos.
Nos lembra mais uma vez a monstruosa empresa fabricante dos iPhones, a Foxconn, que para impedir os sucessivos suicídios de seus funcionários instalou redes de segurança para impedir que eles se matassem se jogando dos prédios. Ainda mais bizarro, os funcionários passaram a ser obrigados a assina uma espécie de acordo de não-suicídio para poder trabalhar na fábrica, afirmando que “em caso de ferimento não-acidental (incluindo mutilação e suicídio)”, o funcionário concorda que “a empresa agiu corretamente e de acordo com as leis e regulamentos pertinentes e que não irá tomar medidas legais que poderão prejudicar sua reputação ou normas operacionais”.
Por mais bizarro que pareçam as atitudes da Foxconn, não deixam de ser – tal como é a exploração dos trabalhadores nas fábricas chinesas – apenas uma hipérbole do que constitui a principal orientação da OMS para a prevenção de suicídios: tirar os meios das mãos dos suicidas. Isso se refere, em primeiro lugar, à continuidade da lógica que leva essas pessoas a buscar o suicídio: a privação de sua condição de sujeitos diante de sua própria vida.
Outra recomendação da OMS bastante ligada a essa visão é a de proibir a divulgação de casos de suicídio para evitar a influência de novos casos. Isso é o que determina, por exemplo, o ocultamento de casos de suicídio no metrô, que só em São Paulo extrapolam a média de um por mês, pelo menos. As redações das mídias estão todas de acordo com isso. De acordo com a OMS, o comportamento midiático que “sensacionaliza” o suicídio aumenta o risco de novos casos “por imitação”. Mais uma vez, não se trata de questionar, nem por um segundo, porque alguém veria um outro caso de suicídio e disso concluiria que é uma boa ideia, ou uma forma acessível de realizar o desejo de morte, sendo assim influenciada. Para a ONU essas são “não-sujeitos”, que simplesmente assistem a um suicídio alheio e imitam, sem refletir ou desejar nada por si mesmas.
O relatório da OMS os trata como “pessoas vulneráveis” (“vulneráveis por que?” é a pergunta que são incapazes de responder ou formular). Entre os comportamentos que consideram irresponsáveis por parte da mídia, estão a divulgação “gratuita” de suicídios de celebridades, exibir fotos ou informações sobre métodos utilizados ou “normalizam o suicídio como uma resposta aceitável para uma crise ou adversidade”. Além de nos legarem vidas de miséria e privação, de exploração e opressão, ainda querem por meio dos técnicos de saúde da ONU, nos doutrinar a respeito do que é uma “resposta aceitável” ou não diante da existência a que nos submetem. Tal como os padres que condenavam ao inferno os suicidas pecadores.
Infelizmente, esse tipo de visão é hegemônica, e influencia inclusive as pessoas que têm ideações suicidas, ou que já tentaram se suicidar. A visão biologizante ao mesmo tempo culpabiliza o indivíduo (são seus neurotransmissores “defeituosos” os culpados por sua depressão ou vontade de se suicidar), e o anula enquanto sujeito. Retomaremos isso ao tratar das depressões. Mas, cabe uma observação (também a ser desenvolvida em outro texto) de que a recente polêmica que tomou as redes sociais em torno da série “13 reasons why” em grande medida se estrutura nessa visão hegemônica. As pessoas depressivas ou suicidas deveriam evitar a todo custo assistir a série porque seria um “trigger” – termo que se tornou popular para referir-se a um desencadeador afetivo relativo a episódios traumáticos. Tal visão se pauta no desprovimento das pessoas de capacidade crítica ou afetiva própria.
Como no caso do metrô, são “bonecos” prontos a serem empurrados para cá ou para lá afetivamente, sem inclusive poderem decidir por si próprias se estão aptas ou não a fazerem essa ou aquela experiência com uma obra de arte. Para evitar o conflito psíquico, se recorre ao expediente do esvaziamento das experiências, pois os “suicidas em potencial” são psiquicamente “frágeis demais” para essa ou aquela experiência. É o tabu do suicídio retornando de seu recalque social, com a nova roupagem que a OMS lhe deu. A “romantização” ou “glamourização” do suicídio cumpriria o papel de empurrar à morte, e não todos os problemas que previamente deixaram a pessoa em tal condição que supostamente um seriado poderia ser a gota d’água. A série, como a “mídia irresponsável”, apresenta o suicídio como uma “resposta aceitável” (diante do que o senso crítico do “espectador suicida” viraria fumaça).
O fundamento dessa visão é (além da responsabilização individual e desresponsabilização do Estado) a concepção da medicina capitalista quanto às causas do suicídio, que discutiremos mais profundamente ao tratarmos das doenças psíquicas, mas que se refere a acreditar que os suicidas “não sabem o que fazem”, que estão tomados por uma espécie de descontrole bioquímico de suas atitudes que os leva a se matarem impulsivamente. São desresponsabilizados como sujeitos, e responsabilizados bioquimicamente (individualmente, isentando as responsabilidades sociais).
Assassinatos ou insubmissão?
Sim, é evidente que muitos suicídios são feitos de forma impulsiva. Mesmo porque, em última instância, não é o desejo de nenhum suicida o de não viver. Pelo contrário, consideramos, como Marx, que, de forma distorcida, é o amor pela vida que leva tantos a decidirem frequentemente acabar com uma “existência detestável”. Ao pensarmos em todos os fatores aqui levantados, como a crise e o desemprego, a exploração do trabalho a níveis letais, o roubo de terras e privação de direitos, a transfobia e a discriminação ou a dominação patriarcal, podemos afirmar que são todas condições que privam não apenas as pessoas de uma vida digna, mas que às levam à situação-limite de não serem sujeitos, efetivamente, de suas próprias vidas. De estarem privadas materialmente da possibilidade de viverem de acordo com pretensões mínimas de liberdade e dignidade. São reiteradamente, dia-a-dia, empurradas à uma sobrevivência que é, de fato, uma “existência detestável”. E, como disse Kayla em sua despedida: “Como desistir de quem você é? Isso não significa a própria morte? E quantas vezes nós morremos esse mês?”.
Nessas situações extremas, não é um exagero dizer que o suicídio é, também, um ato de insubmissão. Frente à impossibilidade de ser sujeito em sua própria vida, o indivíduo torna-se sujeito de sua própria morte, decidindo que é melhor morrer do que viver, dia após dia, sujeitado. O gesto dos escravos que se suicidavam para não servir a seus senhores, dos operários chineses ameaçando a morte ou se suicidando para não mais viver com aqueles salários e condições, são exemplos desse último grito. Cartas como a da jovem Leelah, que antes de morrer deixa o apelo “consertem a sociedade. Por favor” deixam claro, sem meias palavras.
Olhando pelo outro lado, poderíamos dizer que esses suicídios de que tratamos são, de fato, assassinatos. Representam a cruel inviabilização de que suas vítimas gozem de suas vidas, a sua condução a becos sem saída em que a impotência para mudar a situação, sob o peso das engrenagens do capital, de seus Estados, seus preconceitos e opressões se torna tamanha que a única perspectiva plausível aos que se encontram nessa situação seja a morte auto infligida. Sem dúvida, em cada ato desses reside um pouco das duas faces dessa moeda: um assassinato praticado pelo capitalismo, e um ato de rebeldia contra sua tirania.
O que se trata, frente a essas mortes, é de lutar por uma nova sociedade, em que a vida não seja um fardo insuportável que não vale mais à pena carregar, mas sim uma experiência plena, em que cada um possa se fazer sujeito de suas ações, desejos e identidades, e ser de fato livre. No texto seguinte dessa série trataremos das doenças psíquicas e da forma como a sociedade capitalista as trata.