quarta-feira, 13 de maio de 2015

Sabina Spielrein: pioneira da psicanálise no país dos sovietes




(texto publicado originalmente no Esquerda Diário)

No ano de 1904 pela primeira vez se realizou um tratamento psicanalítico fora da cidade de Viena e sem a supervisão direta de Sigmund Freud, o fundador da ainda jovem psicanálise. O médico a aplicar o tratamento era Carl Gustav Jung, discípulo de Eugene Bleuler, diretor da Clínica do Hospital Burghölzli, ligada à Universidade de Zurique, na Suíça. Sua paciente era a jovem russa Sabina Spielrein. Foi esse tratamento que levou a que se estabelecesse a relação entre Freud e seu mais célebre discípulo e posterior dissidente, fundador da psicologia analítica, Jung. Muito mais se fala desse tratamento, contudo, retratado, por exemplo, no filme de David Cronenberg, “Um método perigoso”, do que do impressionante e brilhante destino de sua paciente, Sabina Spielrein. Não deixa de ser tristemente representativo de nossa sociedade que essa mulher seja lembrada muito mais pelo fato de ter sido amante de Jung do que pelas contribuições fundamentais que deu à psicanálise e outras áreas do conhecimento.

                O “esquecimento” de Sabine Spielrein por cerca de sessenta anos da história da psicanálise, e na qual ainda não foi reinserida com a justiça devida, não é um mero acaso, mas é uma expressão bastante nítida de como uma sociedade patriarcal e machista se manifesta em cada tentativa das mulheres de furar esse cerco. Assim, foi apenas em 1977, quando o analista junguiano Aldo Carotenuto publicou as cartas trocadas entre Sabina, Freud e Jung que ela voltou a ser discutida, ainda que o peso da “anedota” de seu caso amoroso com Jung tenha, mais uma vez, revelado o peso do patriarcado, deixando a obra de Spielrein em segundo plano.

A “segunda analista”

                Sabina não foi a primeira mulher a penetrar o então restrito círculo dos pioneiros da psicanálise que se reuniu em torno de Freud. Dois anos após a fundação da Sociedade Psicanalítica de Viena, ocorrida em 1908 com vinte e dois membros – todos homens – foi proposto, por iniciativa de Paul Federn, a admissão da primeira mulher: Margarete Hilferding. Além de uma das primeiras mulheres a se formar na Faculdade de Medicina de Viena, era militante socialista no Partido Social-Democrata da Áustria (SPD), junto a seu companheiro, o célebre economista Rudolf Hilferding, cujo livro “O Capital Financeiro” foi uma das principais fontes econômicas para “O Imperialismo”, de Lênin. É provável que não apenas a condição de mulher, mas também a de militante socialista, tenha pesado para levantar a objeção de Isidor Sadger, membro da sociedade. Freud, então, declarou que seria uma “grosseira inconsistência” se as mulheres não pudessem, por princípio, fazer parte da sociedade. Então, precedendo a votação sobre a adesão específica de Margarete Hilferding, há uma votação sobre se seriam aceitas mulheres na sociedade: a adesão destas é aceita por onze votos a favor e três contra. 

                Finalmente, na reunião de 27 de abril de 1910 é votada a adesão de Hilferding, após uma discussão em que as posições expressam uma impressionante misoginia, inclusive por parte dos que defendem a aceitação de Hilferding. Inclusive o próprio Freud, defendendo a aceitação da candidata, chega a afirmar que “a mulher nada ganha em estudar, pois, no conjunto, não melhorará por esse caminho, pois as mulheres não podem igualar-se aos homens na obtenção da sublimação da sexualidade”. No entanto, também afirma que na misoginia dos homens há uma atitude infantil. De acordo com Elisabeth Roudinesco, a opinião de Freud sobre a menor capacidade de sublimação das mulheres será alterada no futuro. A ata da reunião é descrita pormenorizadamente por Renata Cromberg em seu excelente artigo “Primeiras psicanalistas”.

É interessante notar que, apesar de um posicionamento político francamente conservador, e de posições por vezes problemáticas sobre o papel das mulheres, Freud tenha defendido enfaticamente a admissão das mulheres na psicanálise, bem como em outras ocasiões defendido que essas deveriam ter um papel protagonista para o estudo do psiquismo das mulheres em questões que ainda considerava não estudadas profundamente. Dessa vez, a opinião de Freud prevaleceu contra o obscurantismo de alguns de seus colegas, mas nem sempre foi assim: quanto à admissão de homossexuais, ele teve seu voto vencido, tendo a IPA (International Psychoanalytical Association) rejeitado sua admissão como psicanalistas, com uma regra que nunca foi escrita mas que barrou o acesso de homossexuais à formação psicanalítica por décadas a partir de 1921. Ainda hoje, a homofobia persiste com força, ainda que não ouse se proclamar tão abertamente, na maior parte das associações psicanalíticas. Outra votação em que Freud quase foi derrotado foi em relação a não admitir a entrada da Sociedade de Psicanálise de Moscou em decorrência do governo operário russo (da qual Sabina Spierlman foi uma das fundadoras). Essas e outras propostas reacionárias que contaram com a objeção de Freud eram consequência da influência de Ernst Jones, um dos grandes responsáveis pela domesticação da psicanálise para que ela pudesse ter uma convivência “pacífica” com o regime nazista mesmo após o exílio de Freud em Londres. Em nome da “neutralidade”, a psicanálise oficialista foi cúmplice de inúmeras outras violações, como o regime militar no Brasil.

O pioneirismo teórico

                Sabina Spielrein inicia seu tratamento com Jung em 1904 com apenas dezoito anos e, após a conclusão, forma-se em medicina. Em 1911 ingressa na Sociedade Psicanalítica de Viena, cerca de um ano após a admissão de Hielferding. Suas publicações dessa época colocam Sabina na vanguarda de questões de primeira importância para o desenvolvimento da teoria psicanalítica. 

Na medicina, sua dissertação de conclusão de curso, intitulada “O conteúdo psicológico de um caso de esquizofrenia (dementia praecox)” foi um dos primeiros trabalhos a relatar minuciosamente a aplicação da técnica psicanalítica em um caso de esquizofrenia – termo que havia sido apenas recentemente cunhado por Bleuler para designar o que até então era conhecido como “demência precoce”. A dissertação abordava o conteúdo do tratamento de uma paciente e a relação entre sua fala e o conteúdo sexual reprimido, e, ao lado de trabalhos de Jung, Bleuler e Karl Abraham foi fundamental para efetivar a psicanálise como uma terapia efetiva em relação aos pacientes psicóticos.

Em 1912, Spielrein se adianta em nove anos em relação a Freud ao elaborar o conceito de pulsão de morte ou de destruição, em seu artigo “A destruição como causa do devir”. É a partir da análise da esquizofrenia e da neurose, da realização artística e da entrega amorosa, que ela afirma que o conflito entre as pulsões sexuais de vida e as pulsões de destruição e de morte fundem-se na criação do devir, do movimento criador.

Ainda nesse mesmo ano, publica “Contribuições para o conhecimento da psique infantil”, sendo também uma importante desbravadora do terreno da psicanálise com crianças, bem anteriormente do que a historiografia oficial celebra com Anna Freud e Melanie Klein, cuja primeira comunicação diante da sociedade psicanalítica, sete anos depois, seria precedida ainda por dez artigos de Spielrein sobre a análise de crianças. Esse tema seria central em sua produção, dando origem a outros artigos como “A origem das palavras infantis mamãe e papai – sobre o problema da origem e desenvolvimento da linguagem”, de 1920, ou “Algumas analogias entre o pensamento da criança, o do afásico e o pensamento subconsciente”, de 1923. Nesse campo, sua atuação prática também seria grandiosa, como veremos a seguir em relação à sua atuação na Rússia.

Spielrein também teve uma importante parceria com Jean Piaget, que fez análise com ela durante oito meses, seis dias por semana. Juntos, trabalharam com Eduard Claparède no Instituto de Psicologia Experimental e de Investigação do Desenvolvimento Infantil Jean Jacques Rousseau. Desenvolveram em conjunto um trabalho sobre as origens do pensamento e da linguagem e uma teoria da simbolização que, contudo, nunca foi escrita antes que seus caminhos se separassem.

Levando a psicanálise ao país dos sovietes

                Após a colaboração com Piaget e Claparéde, Spielrein chegou a residir em Berlim a pedido de Freud, que julgava sua contribuição ali importante. Contudo, em 1923, Sabina partiria para a Rússia revolucionária. Ali, por intermédio de Trotski, que sempre defendera o incentivo e a plena liberdade para o desenvolvimento das investigações psicanalíticas, Spielrein seria muito bem recebida pelo governo operário. Foi convidada por Vera Schmidt a dirigir a clínica psicanalítica para crianças que aquela havia fundado, bem como a inédita experiência do jardim da infância psicanalítico (mais conhecido pelo nome oficial de Lar Experimental para Crianças ou Casa Branca), ambos construídos sob o incentivo do governo soviético, que, mesmo em meio à imensa miséria gerada pela sucessão de duas guerras e do poderoso ataque imperialista à revolução de outubro, encontrou recursos para fomentar essas fascinantes iniciativas. Spielrein também assumiu a chefia do departamento de pedologia (uma ciência soviética que estudava o desenvolvimento da infância, mais um exemplo de como as crianças tinham o primeiro plano nas prioridades do Estado operário) na Universidade de Moscou. 

Fundou então, junto a Dimitrievitch Ermakov e Moshe Wulff, a Sociedade Psicanalítica na Rússia, que chegou a ser a mais numerosa de sua época. Sem dúvida, não se poderia ver como simples “coincidência” esse impressionante florescimento da psicanálise na Rússia, justamente no período revolucionário em que houve um maravilhoso desenvolvimento das artes e ciências no rastro da revolução, enquanto na Europa a psicanálise se encontrava cada vez mais estrangulada pelo ascenso do nazi-fascismo que, quando não procurou destruir diretamente a teoria psicanalítica, como com as fogueiras de livros na Alemanha, acabou por “domesticar” a psicanálise, o que gerou seus efeitos devastadores na IPA (Associação Internacional de Psicanálise) sob o comando de Ernst Jones e a conivência de Freud, que mesmo tendo sido obrigado ao exílio em Londres, desejava que a psicanálise mantivesse a posição de “neutralidade” para que pudesse sobreviver em meio ao acirramento bélico que começava a se gestar.

O período de glória da psicanálise na Rússia soviética duraria mais alguns anos, durante os quais Spielrein desenvolveu uma intensa atividade, atuando como analista didata, proferindo seminários e conferências, e emergindo como um verdadeiro pólo de atração de novos cientistas e analistas. Ocupou nesse período três cargos: o já mencionado na cátedra de Pedologia da Primeira Universidade de Moscou; o de consultora médica pedagógica da Terceira Internacional em uma vila de crianças (mais uma experiência social fruto da revolução, muito bem descritas no livro “Mulher, Estado e Revolução” da historiadora Wendy Goldman); e, finalmente, como colaboradora científica no instituto psicanalítico estatal (provavelmente o único instituto público a financiar a psicanálise no mundo nessa época). Sua influência nessa época foi decisiva para nomes como Vygotsky, Leontiev e Luria, três dos mais importantes pioneiros da psicologia soviética.

No entanto, o estrangulamento da revolução nas mãos do estalinismo significou também o fim das possibilidades de desenvolvimento da psicanálise na URSS. Considerada como uma “ciência burguesa” e coberta de injúrias pelo pensamento burocrático e castrador da camarilha que expropriou o poder dos sovietes e da classe operária, a psicanálise foi rapidamente sendo extirpada da União Soviética. Emblematicamente, a Sociedade Psicanalítica Russa foi dissolvida em novembro de 1929, o mesmo mês em que era exilado o dirigente revolucionário Leon Trotski, que havia sido e permaneceria sendo o mais fervoroso combatente pelo legado revolucionário russo, e também quem havia lutado para que a psicanálise tivesse todo o espaço e os recursos necessários para se desenvolver no país dos sovietes. Então, Sabina retornou à sua cidade natal, Rostov sobre o Don. Em 1936, a psicanálise é oficialmente proibida pelo estalinismo. Diante disso, Sabina retornou à música, à qual já havia se dedicado profissionalmente entre 1913 e 1918, e pela qual era apaixonada. A partir de 1929 foi proibida de deixar a Rússia; em 1937, seus irmãos são deportados aos Gulags; em 1942, durante a ocupação nazista, Sabina e suas duas filhas foram assassinadas pelas tropas de ocupação. 

Assim, com apenas 56 anos, Sabina Spielrein morreu. Sua vida foi testemunho de uma mulher que superou o peso colossal de uma sociedade patriarcal, vencendo a patologia psíquica que lhe afligiu, a discriminação, contribuindo para o entendimento da mente humana e sendo uma pioneira na investigação. É também um testemunho valioso da grandiosa contribuição que a revolução socialista pode dar para o desenvolvimento do conhecimento humano no sentido da emancipação, bem como do poder castrador da burocratização de um processo revolucionário em curso.

Referências:



quarta-feira, 6 de maio de 2015

Porque viver sem ser uma máquina (carta aberta à minha amiga deprimida)



Minha querida, eu li seu desabafo. Foi cedo que essa dor de viver chegou em você. E cedo te convenceram que você era uma máquina: sua química desbalanceada levou você a esse “defeito” de não querer viver, de não funcionar “normalmente” como as outras pessoas. Pior do que querer a morte, foi isso de que te convenceram com a autoridade da ciência, o poder dos números e estatísticas: de que você não é um ser desejante, capaz de ser sujeito; você é uma máquina programada bioquimicamente para sentir e pensar aquilo que está inscrito no seu corpo. Sua dor não tem motivos palpáveis, justos, legítimos – ela é o fruto de um “lapso no cérebro”, como você mesma disse.

Quando você deixa de ser sujeito diante de sua própria vida, a sua dor se torna algo externo, algo que chega e te arrebata, e contra a qual você nada pode fazer. Exceto, talvez, tentar balancear sua bioquímica com as receitas que os especialistas te dão. Os remédios são sujeitos de sua cura, os médicos são sujeitos de sua cura. Você, não. Você passivamente sofre, passivamente se medica, passivamente assiste a batalha pela sua vida e sua morte. Assim, o ato de se matar é “egoísta”; afinal, se sua vida não pertence a você e, quando você a tira, está tirando algo de outra pessoa. É a esse ponto que chegou seu desejo. Ele é culpa, ele é vergonha. E a morte passa a ser a única perspectiva de ser livre.

O primeiro babaca que te receitou os remédios (acredito no título de babaca que você deu a ele não apenas por confiar em seu julgamento, mas porque minha experiência confirma a babaquice em alguém que não se dá o papel de ser mais que um mercador de ilusões e panaceias da indústria farmacêutica), você disse que ele “se achou muito esperto quando disse que minha depressão teria algo a ver com o que eu tinha passado”. Pois é, para alguém que se acostumou a ver o sofrimento e o desejo como um cérebro e um punhado de neurotransmissores, é realmente uma manobra ousada de esperteza achar que uma pessoa pode ser influenciada também pela vida. Mas a esperteza dele ficou só no discurso, porque a prática era a mesma: tome esses remédios e ficará curada. E o que você passou, que “tinha a ver” com a depressão? Pouco importa, para o babaca. 

Mas é preciso pensar além do que os babacas falam, o que sei que você é muito capaz de fazer, ainda que seja mais difícil quando se trata de nós mesmos e, principalmente, no meio desse sofrimento que você está passando. Há uns cem anos atrás um cara menos babaca do que esse psiquiatra, chamado Freud, falava de uma coisa que ele chamava de séries complementares: que as doenças psíquicas não têm uma origem única, simples, de fácil determinação, como querem os manuais de psiquiatria e os babacas que os leem e reproduzem como a uma bíblia. Sim, o seu cérebro importa; não, a sua mente não é só um reflexo da sua bioquímica cerebral. Aquilo que chamamos de fatores inatos ou hereditários (ou seja, a sua genética, a constituição biológica do seu cérebro e aquilo que você herdou) têm um peso para saber como será sua formação psíquica; também têm um peso a experiência, as suas vivências, o que você passou e como você “digeriu” tudo isso; nisso tem um papel fundamental a infância e, em particular, a sexualidade infantil. E aí, por cima disso tudo, tem a causa específica, ou seja, a gota d’água, o acontecimento (seja “concreto” ou psíquico) que desencadeou o aparecimento da doença. Ele faz emergir tudo aquilo que estava ali, aquela montanha de pólvora enterrada no seu inconsciente, esperando uma faísca para explodir. Deve ter sido apenas essa faísca que o tal babaca viu, achando que sua doença “tinha a ver” com ela. Bom, pelo menos algo o babaca percebeu.

Mas eu estou dizendo tudo isso pelo seguinte, minha amiga: a sua doença, o seu sofrimento, não é “causado por nada” e nem alheio ao seu desejo, à sua história, ao que você pode fazer em relação a ele. A sua vida é sua, em primeiro lugar. Tome os remédios, mas não porque eles irão resolver o balanço bioquímico do seu cérebro sobre o qual você não tem nenhum controle e te impedir de cometer o ato egoísta do suicídio. Tome os remédios porque eles vão te ajudar agora, nesse momento de extrema dificuldade, e servir como muletas. Muletas para que, ainda mancando, você possa passar por um processo de análise, possa investigar sua própria história, a história de seus desejos, as questões que você reprimiu em seu inconsciente, e, assim, aos poucos, ir sendo capaz de lidar com tudo isso que fez você adoecer. Tornar-se mais sujeito de tudo que te atormenta e se fortalecer para, depois, não precisar mais das muletas e andar com as suas pernas, tendo controle sobre a sua vida. 

Não há aqui cura mágica, e as nossas pernas sempre serão bambas, sujeitas a tropeços e a cair pelo caminho. É para isso que estamos aqui, nós, as pessoas que te amam. Para te ajudar quando você tropeçar, para te dar um ombro no qual você possa se escorar de vez em quando, ainda que eles nunca possam substituir suas pernas (da mesma forma que as muletas dos remédios não poderão). E, se, um dia, você não aguentar mais essa vida e resolver tirá-la, não estará cometendo um crime contra ninguém se não contra a sua possibilidade de viver. A sua vida não pertence à sua mãe, à sua família, aos seus amigos: ela pertence a você. E é você e mais ninguém que, em última instância, é capaz de julgar se ainda vale viver ou não. 

Fique viva hoje, eu te recomendo, porque você tem tudo a seu favor para melhorar e viver uma vida plena. As possibilidades estão todas diante de você. Se não estivessem, e a vida fosse um fardo, jamais insistiria para que você permanecesse entre nós. Lembre-se, a nossa luta, na qual tenho orgulho de estar a seu lado, é para isso: que as pessoas possam viver sua vida plenamente. Quando essa possibilidade se esgota, a luta para que ela permaneça existindo, em forma vegetativa, não é mais nossa, mas dos padres, dos moralistas, daqueles que veem a vida como um fardo, um dever, algo que pertence a “deus” ou à “família”. Daqueles que querem você como uma pessoa “funcional”. Não é isso que você deve ser. Você deve ser um sujeito, desejante, capaz de fazer e lutar por aquilo que ama. É nessa caminhada que estarei ao seu lado, sempre.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Disforia: Bonecas Matrioshkas Ou Fita De Möbius?

Por Bia Bagagli, publicado originalmente em Transfeminismo



Ontem sofri disforia. Passei parte da noite, antes de dormir, chorando. Me senti fraca. Mas eu me interrogava: isso é tristeza? As pessoas choram se estão tristes, este é o sentido normal. No entanto, é possível chorar por indignação, revolta? Não se trata propriamente de um estado “deprimido”. Não sinto a vida rebaixada, desprezível. Esta tristeza é outra, fruto da indignação frente às injustiças e o anseio à transformação social. Este texto é fruto desta inquietação.
A disforia que senti era de natureza “exterior”. Não essencialmente exterior, mas enquanto efeito. Ela se mostrava a mim enquanto externa a meu corpo. Ela se orientava ao externo, ao corpo social. Cabe aqui uma explicação pelo o que eu entendo por disforia interna e externa. E pelas próprias categorias de interior e exterior. Para tanto, as metáforas das bonecas Matrioshkas e a fita de Möbius são precisas para entendermos a relação – que proponho paradoxal, dada a escolha pela fita em detrimento das bonecas – entre o indivíduo (interno) e social (externo) no que tange à discussão da disforia (sofrimento do indivíduo) e da transfobia (“sofrimento do social”).
Minha indignação que me referi acima se deu em relação ao discurso psiquiátrico e psicológico que concebe discursivamente a transexualidade. Quando chorava, entendia que o discurso psiquiátrico e mesmo o psicológico causavam – ao invés de pretensamente aliviar ou curar – a disforia externa, social. Tanto um quanto o outro discurso pressupõe a existência do indivíduo. Este individuo, de acordo com a perspectiva psicologista, comum ao discurso da psiquiatria e da psicologia, pressupõe um “núcleo duro” interno – sua subjetividade, suas identidades, suas doenças, suas disforias, etc – e um exterior social. Nesta perspectiva o interior (subjetivo) não se confunde com o exterior (social), ao mesmo tempo em que um pressupõe a existência do outro. É neste modelo que tem se concebido a disforia e o atendimento à saúde (mental/física) às pessoas trans*.
O sofrimento do indivíduo é a disforia e o sofrimento do social é a transfobia. O discurso terapêutico julga poder atuar no sofrimento individual, enquanto o sofrimento do social seria incumbência de militantes. A questão, como veremos, não pode ser tão simples. E quando o exterior e o interior se amalgamam? E quando o “pessoal é político”, enunciado esse que reverberou tanto pelo discurso feminista? É neste ponto paradoxal em que o interno é e não é ao mesmo tempo o externo que é possível ver os pontos de falha e rachadura do psicologismo.
Cabe apontar as diferenças entre o discurso psiquiátrico e o psicológico. Ambos caem no perigo do psicologismo. Ambos se baseiam nas bonecas Matrioshkas. Estas bonecas são constituídas em série, na qual uma se encaixa dentro da outra. Aqui temos três bonecas: a central é a biológica, a intermediária é a psicológica e a externa é a social. Aqui temos o clássico sujeito biopsicossocial nos seus efeitos mais aparentes. Cada boneca pressupõe o exterior da outra, de forma com que o biológico, o psicológico e o social se comunicarem em suas ordens distintas. Se somarmos estes três vetores de forma positiva faríamos uma ciência positiva da psique humana. Cada ordem distinta estabeleceria uma relação de determinação transparente com a outra, ao mesmo tempo em que uma é exterior à outra. O que separa uma boneca da outra garante a estabilidade das distintas ordens do real. O terapeuta poderia atuar na boneca biológica (psiquiatria) ou psicológica (psicologia) sem atuar diretamente na boneca social (como disse, seria assunto para militantes), mesmo pressupondo em certo sentido a sua existência. O paradoxo da relação entre o indivíduo e o social tenta ser apagado por uma higienização pedagógica do pensamento. É isso que o psicologismo propõe. As bonecas propõem uma classificação do mundo através de uma narrativa coerente e coesa – e não paradoxal e contraditória. O corpo (disfórico) aqui acaba emergindo deste discurso enquanto necessitado de uma coesão. O problema é quando o não-todo do gênero emerge como sem-sentido. O que fazer com identidades transgêneras – tidas como patológicas – que escapam à coerência ciscentrada da transexualidade (a travestilidade)?
boneca russa
Esta higienização do pensamento visa uma operação de inclusão e exclusão da categoria do social, e com isso, do político. Podemos observar os traços deixados por essa denegação. O principal erro do psicologismo é pretender tratar “problemas” que seriam estritamente individuais se apartando do problema social. Mesmo que o psiquiatra ou o psicólogo “entendam” que a transfobia gera sofrimento psíquico, o discurso psicológico e psiquiátrico funcionam através da disjunção entre o que seria da ordem interna (disforia individual, ligada ao corpo) da ordem externa (“sofrimento do social”, opressão transfóbica). A forma como entendemos a relação interior/exterior é crucial para a questão transgênera. Agora, vou voltar ainda para as diferenças que me referi vagamente acima entre psiquiatria e psicologia. A psiquiatria tem uma ojeriza completa pelo social. Neste sentido, é mais visivelmente cissexista. A psiquiatria parte da boneca biológica para entender a psicológica, podendo quase que ignorar completamente a boneca social. Neste funcionamento, o biológico é tido como pressuposto e causa do psíquico. Já no discurso da psicologia, o funcionamento das três bonecas é um tanto mais complexo, já que a psicologia (ou certos discursos da psicologia) tem uma forte preocupação com o social. Porém, em última instância, a psicologia trabalha com as bonecas, e as divisões que ela pressupõe.
O trabalho entre bonecas pelo discurso da psicologia tem lá seus pontos de contradição e equívoco. Afinal, não há encaixe perfeito de uma boneca à outra, podendo ser possível observar os furos entre elas. Hailey observou perspicazmente em seu texto “Sobre a nota do CFP: Patologização das identidades trans* e compulsoriedade da psicoterapia no processo transexualizador”. Em seu texto, vemos que ao mesmo tempo em que há um “comprometimento com o social” em despatologizar as identidades trans*, a psicologia demonstra seu ponto de limite (ou mesmo um ponto cego), que diz respeito justamente aos núcleos duros do indivíduo biopsicológico que ela não quer abrir mão. Haveria, por mais que se reconheça a importância da despatologização – e com isso, o reconhecimento dos indivíduos transgêneros enquanto sujeitos, e não objetos afetados por uma patologia às suas próprias revelias – a contradição de não ir a fundo nesta empreitada, já que, em última instância, um psicólogo poderia distinguir as subjetividades corretamente patológicas das patológicas sem-sentido. Aqui impera em última instância a necessidade de coerência sobre o corpo disfórico. Coerência esta pautada pela norma cisgênera. Eis o mito da transexualidade em seus efeitos.
Com “corretamente patológica” quero dizer que o discurso psicológico julga, em última instância, poder dizer quem está apto ou não a receber o tratamento que deseja. A revelia do sujeito transgênero, desconsiderando, em última instância, sua narrativa pessoal do gênero. Já a psiquiatria, como disse, é escancaradamente julgadora: é logo em primeira instância que um psiquiatra vai julgar quem é legitimamente transgênero (transexual). Entre a última e a primeira instância: eis o que diferencia a psiquiatria da psicologia. A transexualidade é construção pelo discurso psicologista de uma patologia com sentido e a travestilidade uma patologia sem sentido.
Para quem não conhece, ir a um psiquiatra sendo trans* é passeio nada agradável. Em primeira instância ele irá te separar da patologia com ou sem sentido. Para tanto, somos interpeladas com perguntas bastante “diretas”, tais como “você se masturba?”, “como faz isso?”, “sente prazer?”, “o que pensa quando se masturba”, etc; até perguntas ainda mais grosseiras, como se usamos calcinha (!) ou qual animal gostaríamos de ser (veja aí a capciosidade de gênero da pergunta), dentre diversas outras que só a mais incrível criatividade psiquiátrica poderia conceber. E passamos por estes profissionais não por mero prazer sádico. A cidadania para pessoas transgêneras no Brasil exige a figura do laudo psiquiátrico. Precisamos dizer se e como masturbamos para sermos cidadãs e cidadãos. Não conheço forma, ao mesmo tempo, mais sutil e escancarada de objetificação e genitalização que esta.
E quando não nos reconhecemos nos sentidos que disjungem a transexualidade e a travestilidade? E quando somos travestis e estamos excluídas do sistema simbólico que significa a patologia com sentido?
Da minha posição, para resolver esse imbróglio precisamos repensar drasticamente as categorias de interior e exterior, como referi acima. Para isso é necessário pensar através da metáfora da fita de Möbius. Uma fita de Möbius possui apenas um lado e uma borda. Nela, não existe, portanto, lado interno e externo, dentro ou fora. Diferente das bonecas, em que existe, além de uma borda estanque entre o que está fora ou dentro, uma hierarquia entre o núcleo e a periferia. Pensar na fita irá nos afastar de qualquer possibilidade de demarcação estanque da ordem do biológico/psicológico (individual) e sociológico, assim como qualquer forma de hierarquia entre elas. Passamos a compreender a ligação do indivíduo ao social como um continuum paradoxal. O individual é ao mesmo tempo em que não é o social, e vice-versa. Assim, podemos compreender o continuum da disforia à transfobia enquanto sofrimento que vai do corpo individual ao corpo social.
fita mobius
Aqui vai a minha proposta para se pensar a disforia: ela diz respeito ao corpo do indivíduo e ao corpo social. Pensá-la através do paradoxo do que é ao mesmo tempo uno e plural, coeso e cindido. Esta ruptura se faz em relação à psicologia e a psiquiatria rumo à psicanálise. Na psicanálise não há núcleo duro e coeso do indivíduo em contraposição ao núcleo mole e contraditório do social. Há tão somente continuísmo paradoxal. O meu discurso é o discurso do Outro. Com isso vejo a psicanálise como espaço de resistência ao discurso do sujeito centrado no indivíduo. O que não significa dizer que a psicanálise está isenta a priori de reproduzir discursos machistas, cissexistas ou, para ser mais específica, falogocêntricos. O que acho possível e necessário é pensar o sujeito do transfeminismo através das contribuições da psicanálise. Neste processo há uma apropriação da psicanálise pelo transfeminismo, possibilitando deslocamentos e espaços novos de significar a relação sujeito-sociedade. Sofrimento psíquico que não se opõe ao sofrimento social, visto que se trata de manifestações, em ordens distintas, do mesmo processo.
Com isso quero sair de outras formas de oposição, como se – partindo da acepção da determinação social da disforia – ela se resumisse ao social, em uma espécie de efeito-consequência mecanicista. Assim estaríamos condenados a pensar em dois modelos estanques, um que compreenderia a disforia como determinismo biológico (e portanto, com sua forte independência em relação ao social) e outra como puro efeito social. Ao contrário, quero partir de uma concepção do social enquanto relação necessária ao sujeito e não enquanto camada que se tira e põe (como uma boneca Matrioshka). Falo a partir do social para o social, e não apesar e fora dele. Não quero estar fora do social. Não quero ser um conjunto de bonecas cujo núcleo duro seja uma boneca biológica. O efeito social não é algo dado a priori, isento de contradição. Prefiro pensar enquanto assujeitamento ideológico. Não há possibilidade de sairmos da ideologia, toda forma de ação social se dá através de sua mediação. O que inclui o pessoal, o subjetivo. Esta relação não é transparente para mim e para todos. Há algo se imprevisível (mesmo misterioso) neste assujeitamento, já que o nosso movimento (o Mesmo) se dá na relação com o Outro, que o desestabiliza constantemente. O social não é acréscimo de uma camada transparente e positiva fruto de uma dinâmica intersubjetiva que vise o consensual.
Há divisão e conflito no “homem”, o marxismo aponta. O feminismo nos aponta para a divisão (de gênero) e o conflito do sistema patriarcal (machismo). O transfeminismo me mostra outra série real de conflitos. Há conflito e contradição toda vez que somos relegadas a subcidadania pelo cistema e somos divididas entre patologias com e ou sem sentido. Precisamos sair da patologia. Lutar contra a patologização do gênero e tirarmos da posição infantilizante de sujeitos sem agência que seriam determinados pela doença da transexualidade. Pensar o impensado da patologia de gênero (travestilidade) irá nos ajudar a desconstruí-la. Há conflito e divisão no Mesmo e no Outro. Pensar resistências partindo deste princípio significa dar suma importância para a categoria de contradição. Explorar a contradição do discurso da psiquiatria e da psicologia. Repensar o continuísmo espontâneo indivíduo e sociedade. Disforia e transfobia; dentro e fora. Sujeitos antes tidos como patológicos e sem sentidos insurgindo do não sentido para a potência política do gênero: devir travesti.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Tateando no escuro


Dentro de duas semanas eu não tomarei mais antidepressivos. O que tomo atualmente, Pristiq, me acompanha há cerca de quatro anos. Comecei a tomá-lo depois de minha última recaída relativamente séria, após iniciar meu trabalho como professor de português no Ensino Médio da rede pública do estado de São Paulo. Nesse emprego, as doenças psíquicas são uma verdadeira epidemia, assolando os professores como algo quase corriqueiro, esperado.

Mas, por mais que a situação de calamidade completa da educação pública faça da escola um verdadeiro "caldo de cultura" para as doenças mentais, estou longe de querer reivindicar sua exclusividade para os professores. A categoria na qual trabalho hoje, os metroviários, também são um público muito acometido por esse tipo de mal. Meu pai e meu irmão, psiquiatras que por anos (ou décadas, no caso do meu pai) atenderam o convênio do metrô, sabem muito bem disso. Horários de trabalho caóticos, que numa mesma semana podem variar entre manhã, tarde e madrugada; operadores de trem que passam por situações de atropelamento; assédio moral,,, enfim, motivos não faltam também aos metroviários para adoecerem, e muito, somando esse tipo de doenças às inúmeras lesões físicas por esforço repetitivo que podem ser encontrada em cada estação de São Paulo. Serão os metroviários e professsores, então, gente especialmente vulnerável às doenças mentais? Não. Bancários, operários de fábrica (como o excelente documentário "Carne Osso" mostra em relação aos frigoríficos), trabalhadores do telemarketing, aeroviários, motoristas de ônibus... nomeie uma emprego, estude ele a fundo e você descobrirá como, certamente, além de destruir o corpo dos trabalhadores, esse trabalho corrói sua mente. Adoece, em todos os planos. É assim o trabalho no capitalismo. E, tragicamente, ainda persiste em ampla escala, mesmo entre a esquerda revolucionária, o bruto preconceito de que a depressão é "doença de rico". Nem sempre dessa forma tão crua; às vezes são "problemas ideológicos", "falta de convicção política", "falta de conviver com a classe trabalhadora"...

Então, passamos do problema um (a epidemia social das doenças psíquicas, com destaque acentuado para a depressão), para o problema dois: o profundo preconceito e estigma social que sofrem as pessoas vítimas desse mal em virtualmente todos os ambientes de nossa sociedade, inclusive os mais progressistas e questionadores. Eu, talvez por minha criação muito próxima do estudo desse mal, nunca me abalei com o preconceito alheio. Mas por isso mesmo sempre me encheu de fúria, e ainda enche, quando me deparo com o preconceito. Claro que ele é quase sempre fruto da incompreensão, mas a essa muitas vezes se soma a má fé, o dogmatismo, a estupidez. Causa-me repulsa ver gente inteligente, crítica, esclarecida, capaz de fazer um questionamento radical dos pilares dessa sociedade ser completamente leviano ao chegar para alguém e dizer algo como: "Acho que você não devia tomar remédio", ou "Acho que seu problema é seu modo de vida", ou qualquer asneira semelhante. Sim, esse é o preconceito que mais me dói, porque é aquele que vem "de dentro", de onde assentei minhas pilastras para erguer a fortaleza de onde resistir aos ataques do mundo e contra-atacar. Portanto, quando parte daí a discriminação, a sensação de isolamento multiplica-se exponencialmente. Uma pessoa deprimida já se sente sozinha, insegura, com dificuldades para fazer a mais simples das coisas. Quando ela procura amparo, encontra questionamentos absurdos por parte daqueles em quem mais confia. Questionamentos sobre sua força, sua capacidade, sua convicção. Isso é de derrubar qualquer um.

Diferente do que muitos acham, a depressão não é uma "doença de rico". Ela é antes um sintoma social, o "mal do século", No século XIX as neuroses, em particular a histeria, eram a cisão no sujeito que mais precisamente e frequentemente expressava a neurose da sociedade. Hoje, é o narcisismo, o encontro do sujeito consigo mesmo e com o outro, a doença fundamental. A alienação do trabalho, o ritmo de vida, as relações utilitárias e pragmáticas, a desestruturação da formação psíquica do sujeito. A depressão expressa o desencontro desse mundo consigo próprio, e essa fratura penetra o sujeito em seu âmago. Há componentes genéticos, hereditários, bioquímicos? Evidentemente. Mas só uma ciência parida em um mundo tão míope e incapaz de olhar para si mesmo seria capaz de reduzir uma doença que, de um século para o outro, torna-se um dos mais graves problemas de saúde de uma humanidade de sete bilhões de pessoas, a fatores da ordem da genética. Afinal, de onde vieram todos esses "genes deprimidos"?

Por outro lado, atestar a causa social da depressão não cura ninguém. E é isso, um pouco de dialética, que falta a muitos marxistas para entenderem a depressão. A expressão no sujeito de um sintoma social se dá na sua constituição mais profunda. Na sua forma de simbolizar o mundo, de apreendê-lo, de colocar-se nele, de ser sujeito e objeto diante dos outros e de si próprio. Por isso que confio na força da psicanálise como um método essencial para a transformação e a cura. Porque é a forma desenvolvida até hoje mais capaz de entender a subjetividade e o psiquismo como fenômenos em desenvolvimento, a partir de sua própria história, e suas leis particulares de desenvolvimento. A dialética entre social e individual na formação de um psiquismo é muito delicada, e não pode ser reduzida a fórmulas políticas, a programas e estratégias, da mesma forma que o desenvolvimento político de uma sociedade não pode ser compreendido meramente por fatores psicológicos dos membros dessa sociedade.

Estamos apenas engatinhando. Na pré-história da humanidade. E nossa mente é a fronteira final. Sim, é temerário tomar um remédio que nem aqueles que o desenvolveram - que dirá os que os receitam - compreendem muito bem como funciona. Por vezes nos sentimos como quem dá uns tapas na televisão querendo que a imagem volte a aparecer. E o trabalho do psiquiatra muitas vezes é assim: torce a antena para um lado, para o outro, muda a televisão de lugar, vai seguindo essa e aquela pista tentando fazer a imagem ficar nítida. Isso tudo, com muita frequência, com seu paciente na mais alta corda bamba, com sua vida praticamente em suspenso, tentando talvez pela última vez, agarrado a um último fio de esperança, encarar a vida com algum gosto antes de decidir que não há saída ou perspectiva de melhora. É uma arte, que muitos executam não como quem lida com o que há de mais belo e delicado, mas sim como soldados obedientes da indústria farmacêutica, repetindo cegamente os mandamentos de seus DSMs, cegos ao desejo vivo e pulsante, agonizante, sofrente, que se coloca em suas mãos. Mas é uma arte que é uma técnica cega, tateando no escuro, praticamente. Por isso que meu psiquiatra, que hoje está se formando como psicanalista, disse que, ao recorrer à psicanálise em sua formação, estava procurando algo "mais fino". A psicanálise quer penetrar esse ser desejante, compreendê-lo, e, acima de tudo, fazê-lo compreender uma pequena ponta desse abismo escuro chamado psiquismo. Mas querer, nessa luta com palavras, prescindir de avanços que os tais remédios, aqueles mesmo que não entendemos bem como funcionam, nos proporcionam, é no mínimo uma imbecilidade. Não estamos brincando quando lidamos com gente doente. Estamos lidando com vidas, com situações-limite. É isso que médicos, terapeutas e palpiteiros de plantão com frequência esquecem ao receitar desleixadamente suas bolinhas ou jogas seus comentários irrefletidos sobre uma pessoa extremamente fragilizada.

Eu não acredito que precise mais de remédios para conseguir enfrentar meu abismo. Mesmo assim, dá um puta frio na barriga. Essa porcaria que não sei por onde age foi uma tábua de salvação no meio de um oceano gelado. Agora, caminho com meus próprios pés, procuro com as palavras ouvir o eco que ressoa ao gritar nessa caverna escura. Como todos nós. Procurando.


sábado, 20 de dezembro de 2014

A invenção da psicanálise





Não possuímos nosso eu. Ele sopra sobre nós,

foge por muito tempo para o mundo exterior,

e volta em um suspiro.

- Hugo Von Hoffmannsthal

Todas as ideias, filosofias, ciências, religiões, teorias são fruto de seu tempo, seu lugar, sua história. Como afirma Marx, os homens fazem sua própria história, mas não a fazem de acordo com sua vontade, e sim a partir das condições herdadas do passado. São as ideias que recebemos a nossa matéria prima para formular nosso próprio pensamento, reelaborá-lo, refutá-las, recriar nossa visão de mundo. Partimos sempre do passado para construir o futuro.

Essa noção, profundamente materialista, está sempre presente no belo documentário “A invenção da psicanálise” (1997), de Elisabeth Roudinesco e Elisabeth Kapnist, que procura retraçar a origem do pensamento psicanalítico desde a primeira formação de Sigmund Freud – pai da doutrina psicanalítica – no hospital de Salpêtrière com Jean-Martin Charcot, até a decadência da psicanálise nos EUA a partir dos anos 1970 e a hegemonia farmacológica.

Longe de querer apresentar Freud como um ídolo intocável, o documentário, fundado em uma sólida pesquisa histórica e na entrevista com psicanalistas, como a própria Roudinesco, que é hoje uma das maiores pesquisadoras da história da psicanálise, apresenta a psicanálise como um conhecimento em permanente transformação, que freqüentemente contradiz seu próprio fundador. Entre o vasto panorama apresentado no filme, algumas questões são fundamentais para podermos entender como, longe de ser uma doutrina engessada e dogmática que repete os mesmos “mandamentos sagrados” desde a época de Freud, a psicanálise é uma teoria viva, polêmica, em constante transformação e cheia de divergências e atritos entre seus teóricos e praticantes, inclusive antes da morte de seu fundador, em 1940.

Roudinesco, profunda conhecedora de tais polêmicas, situa bem os primórdios da teoria psicanalítica como sendo o lugar da cura pela fala, onde, a partir da escuta dos pacientes se procura entender as origens do sofrimento psíquico na história do desenvolvimento da subjetividade daquele indivíduo, muito distinto da “lista de sintomas” que manuais de psiquiatria modernos como o DSM transformaram na prática cotidiana dos médicos. Contando a história de um dos mais célebres paciente de Freud, Sergei Constantinovich Pankeiev – mais conhecido na historiografia como “o homem dos lobos” – Roudinesco cita uma frase de Freud que ilustra bem a sua concepção distinta das práticas médicas da época. Sergei, tendo passado por muitas clínicas e médicos renomados, conta toda sua história a Freud, que diz a ele: “Procuraram os motivos de seu mal em um penico. Agora, vamos procurá-los em você.”

Outros entrevistados no documentário também chamam a atenção para o papel eminentemente revolucionário que Freud cumpriu para a compreensão da mente humana, sendo pioneiro em afirmar que a homossexualidade não era um crime, um pecado ou uma doença; chamando a atenção para o caráter universal e profundo da sexualidade, inclusive nas crianças; mostrando e elucidando o sofrimento psíquico das mulheres histéricas que eram relegadas pela medicina tradicional. Tudo isso é dito sem que se deixe de lado as contradições de Freud, que era um “bom burguês”, como afirma um dos entrevistados. Sua relação com os analistas adeptos do marxismo, como Wilhelm Reich, mostram isso nitidamente, pois Freud o expulsa da sua sociedade de forma absolutamente intransigente. Essas limitações, no entanto, não devem impedir que nos apropriemos da teoria de Freud.

O filme é preciso em demonstrar não apenas o papel fundamental que cumpre o contexto histórico para o desenvolvimento da doutrina psicanalítica, mas, inclusive, para a evolução das próprias doenças que procura tratar. Roudinesco, fazendo uma comparação com as doenças orgânicas, mostrando como à evolução da medicina corresponde paralelamente uma evolução das doenças (da sífilis à AIDS, como ela exemplifica), chega às doenças mentais mostrando como paralelamente ao desenvolvimento do tratamento da histeria (a psicopatologia mais recorrente no século XIX e com a qual Freud inicia sua investigação) corresponde um desenvolvimento histórico das próprias doenças, em que hoje a depressão cumpre um papel análogo ao que era a histeria há cem anos.

Além de expressar como Freud não era um homem imune às suas próprias contradições sociais, o documentário é profundo ao propor a reflexão de como as condições sociais afetam o próprio desenvolvimento da psicanálise, castrando-a de seu potencial transformador. Um dos momentos em que isso ocorre é no exílio forçado dos psicanalistas judeus após a ascensão do nazismo em Viena e Berlim. Nesse momento, Jones, um dos discípulos de Freud, irá propor sua via para “salvar” a psicanálise a partir de sua adaptação ao regime nazista. Freud, tendo se refugiado em Londres, em nenhum momento de opõe a essa prática. O resultado disso é uma psicanálise deformada e monstruosa, que serve para justificar as atrocidades do regime nazista. O filme nos coloca então a pergunta: teria restado ali algo da psicanálise, efetivamente?

Essa questão teórica não é menor, pois, se dentro dessa construção teórica riquíssima que é a psicanálise, há um amplo espaço para o debate e a divergência, cabe questionarmos até que ponto a sua transformação não retira seu potencial libertador, transfomando-o em seu contrario. Um exemplo nítido da transformação da psicanálise de método terapêutico e teoria do funcionamento psíquico em uma norma reguladora foi oferecido pela atitude vergonhosa de analistas franceses que assinaram um manifesto contra a legalização dos casamentos homoafetivos, alegando, entre outros absurdos, que uma criança criada por um casal homossexual teria seu processo edipiano prejudicado. É de fazer Freud revirar em seu túmulo.

A mesma questão é colocada em outro grau quando, após a destruição da escola de Berlim, mesmo com toda sua capitulação ao regime, esses mesmos analistas migram para os EUA e iniciam um novo tipo de adaptação da psicanálse, que é à sociedade pragmática e puritana norte-americana, que procura a todo custo erradicar a tristeza e promover a saída individual para os males. Essa mentalidade deu origem à nefasta política de higienização mental e do uso da psiquiatria como controle social, uma tradição que até hoje sobrevive na medicalização da vida, ainda que essa psicanálise deturpada tenha sido deixada de lado ao longo dos anos por um aliado muito mais poderoso: a poderosa indústria farmacológica, que gera bilhões com a ideia milagrosa de uma pílula que resolverá todos os males. A ideia que propunha a psicanálise desde sua origem, e que se mantém em todas as suas grandes linhas, é profundamente oposta: é a de que há determinações no sujeito que escapam ao seu controle, fazem parte de seu inconsciente, sua história, e o processo de análise consiste precisamente em tentar se aproximar dessas determinações para que possamos ter algum tipo de conhecimento e, portanto, de controle maior sobre nossas ações, sentimentos, pensamentos. Mas sem nunca chegar a uma cura mágica ou uma ilusória felicidade plena. 


Assista ao documentário: